A pequenina notícia

Correia da Fonseca

Já aqui decerto por várias vezes foi sublinhado o que aliás é óbvio e não constitui segredo para ninguém: que as informações em que os telenoticiários mais se alongam não são as mais importantes ou significativas, longe disso, e que muitas vezes até parecem ter sido ali dependuradas para entretenimento do telespectador confiante, não vá ele (pre)ocupar-se com questões mais graves. A actual «guerra civil» devastadora da tranquilidade e reputação de um grande clube será flagrante exemplo de como a atenção de milhões pode ser aprisionada pela cobertura televisiva de uma questão que não é irrelevante, é certo, que até veio denunciar a que ponto de impudores caiu no nosso país o negócio dos futebóis, mas que está evidentemente longe de constituir uma questão nacional a que seja adequado consagrar horas e horas de antena. Em triste compensação, informações fundamentais para um entendimento das condições concretas a que está submetido o povo português são dadas fugidiamente, quando são dadas, ou passam nos rodapés nos ecrãs enquanto os apresentadores das notícias nos vão falando de coisa diferente.

Depressa

Foi assim que um destes dias a televisão nos informou discreta e sumariamente da existência de cerca de um milhão de portugueses a receber a pensão mínima, e logo o serviço informativo se afastou para outros assuntos decerto mais atraentes. Terá talvez havido quem tenha tido curiosidade em saber qual o «peso» da tal pensão mínima na quotidiana guerra para a difícil sobrevivência, e uma averiguação mesmo sumária terá esclarecido que a coisa anda à volta de trezentos euros mensais, mais euro menos euro, o que corresponde a cerca de sessenta mil escudos na abandonada moeda portuguesa (pois que o euro é moeda internacional, não moeda exclusivamente portuguesa, como bem sabemos) ou, se preferirmos dizê-lo, sessenta dos vetustos «contos» que os mais idosos ainda referem. Pois bem: sabendo isto, a questão que surgirá como mais impositiva é a de se saber, ou pelo menos imaginar com um mínimo de realismo, para que podem chegar os tais trezentos euros. Poupemo-nos ao esforço penoso e amargo de tentar alinhavar aqui o rol de custos inevitáveis a que os cidadãos portugueses têm de fazer frente, desde o do tecto até ao do pão. Ainda assim, registemos que a mesma televisão nos informou há dias que a colheita de dádivas «contra a fome» distribuíra bens alimentares a um milhão de «beneficiados». Parece inegável que o conjunto destes aliás poucos números é impressionante. E, porque o é, impressiona também que a pequenina notícia tão pouco relevada não motive nenhuma das operadoras portuguesas de TV para arrancar com reportagem ou inquérito que averigue em termos muito nítidos como vai este nosso país em termos de fome e outras carências primárias. Para que, a partir daí, se faça alguma coisa. Depressa.




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