Alegados jornalistas…

Margarida Botelho

«Cuba prepara eleição do novo ditador (…) O novo ditador deverá ser agora o actual vice-presidente Miguel Díaz-Canel» – foi assim, sem tirar nem pôr, que José Rodrigues dos Santos, jornalista que apresenta o principal noticiário da televisão pública portuguesa, anunciou a eleição do novo presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros da República de Cuba.

O preconceito, a falta de rigor, a ausência de confirmação dos factos, a cópia acrítica das notícias das agências internacionais, são males infelizmente muito bem espalhados por todo o jornalismo português. Palavras como «alegadamente» ou precauções como «de acordo com» tal ou tal fonte parecem ter sido erradicadas do exercício do jornalismo. Se isso é facilmente constatável no que diz respeito aos noticiários sobre temas nacionais, a coisa complica-se quando se trata de questões internacionais em que, obviamente, a maior parte dos espectadores não tem qualquer conhecimento directo nem acesso ao necessário contraponto.

É por isso que é ainda mais indigna de um jornalista a expressão de Rodrigues dos Santos. Quando a usa, sabe que a generalidade dos telespectadores a aceitará como verdadeira. Usa-a, sabendo que esta eleição culmina um processo eleitoral profundo e prolongado. Usa-a, sabendo que existem sistemas eleitorais muito diversos em cada país, com raízes na história e na soberania de cada povo. Usa-a, sabendo que Portugal e Cuba são estados com relações diplomáticas normais. Mesmo que não soubesse: quando um jornalista não sabe, pergunta, investiga, questiona.

Os jornalistas que reproduzem acriticamente as expressões e concepções do Departamento de Estado norte-americano não merecem a carteira profissional que têm.

 



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