Milhares em greve nas indústrias
OPERÁRIAS Nas indústrias têxteis, de lanifícios e de vestuário, e na Preh, com maioria de mulheres na produção, milhares de trabalhadores fizeram greve no dia 23, por melhores salários e horários.
Com a luta muitas empresas aceitam os 600 euros como mínimo
A greve nos sectores abrangidos pelos sindicatos da Fesete/CGTP-IN «fez-se sentir um pouco por todo o País, com diferentes níveis de adesão de região para região», informou a federação, destacando a participação nos lanifícios da Covilhã, nos têxteis e vestuário do distrito de Aveiro e nos têxteis de Santo Tirso.
Nos contactos realizados durante a greve e na sua preparação, a rede sindical «registou um elevado nível de insatisfação perante os baixos salários praticados e o baixo valor de subsídio de alimentação», que subsistem «num contexto de excelentes resultados das exportações, da produtividade e dos lucros das empresas», como se refere no balanço divulgado pele Fesete ao fim da tarde da passada sexta-feira.
Nas duas semanas decorridas desde que, a 8 de Março, a greve foi anunciada em Guimarães – numa conferência de imprensa em que intervieram a coordenadora da Fesete, Isabel Tavares, e o Secretário-geral da CGTP-IN, Arménio Carlos, e que se seguiu a uma acção pública de protesto, no Largo do Toural – a federação e os seus sindicatos levaram a cabo diversos plenários de empresa, com paralisação da produção, envolvendo cerca de 20 mil trabalhadores. Em muitos dos plenários foram aprovados cadernos reivindicativos, contendo a exigência de que o salário mínimo passe a ser de 600 euros.
A federação refere ainda que, «onde não foi possível a realização de plenários em horário laboral, foram contactados milhares de trabalhadores em meetings à porta das empresas», para «informar, denunciar e protestar contra o boicote patronal à negociação colectiva» e pelo salário mínimo de 600 euros.
«Em resultado deste trabalho e da negociação directa nas empresas foi possível concretizar o objectivo de salário mínimo de 600 euros num conjunto significativo de empresas que abrangem alguns milhares de trabalhadores», afirmou a Fesete, assegurando que, com os sindicatos, vai «dar continuidade à luta e à mobilização dos trabalhadores pelas suas reivindicações, nomeadamente, 600 euros de salário mínimo para o sector, quatro euros de subsídio de alimentação diário e livre negociação colectiva, humanização do trabalho e dignificação das profissões».
O Sindicato dos Têxteis da Beira Baixa (STBB), que integra a Fesete, numa nota de imprensa sobre os primeiros resultados da greve, salientou que a ANIL (associação patronal dos lanifícios) deve entender a resposta dos trabalhadores e, ainda em 2018, aplicar o salário mínimo de 600 euros no sector.
Um dos exemplos referidos é o do Grupo Paulo de Oliveira, na Covilhã, onde aderiram à greve 70 por cento dos trabalhadores afectos à produção, ficado as secções de tecelagem e urdissagem praticamente paralisadas. Nas empresas de Paulo de Oliveira, que é presidente da Mesa da Assembleia Geral da ANIL, esta foi «uma resposta muito importante», considera o sindicato, «já que neste grupo se pratica os mais baixos salários no sector dos lanifícios, apesar de serem as empresas com maiores lucros (24 milhões de euros de lucro líquido em três anos)».
O sindicato destacou ainda os índices de adesão, na produção, na Tessimax (70 por cento) e na Benoli (60 por cento).
Punir a Lanifato
Na véspera da greve, o STBB promoveu uma acção pública de solidariedade para com as trabalhadoras da Lanifato, em Belmonte, chamando a atenção para o assédio moral de que são vítimas e que teve expressão mais grave no despedimento, dia 16, de uma delegada sindical, que também esteve presente no protesto de dia 22.
Nesta iniciativa participou igualmente o Secretário-geral da CGTP-IN, que insistiu na exigência de que a ACT intervenha rapidamente e penalize a empresa, «para que situações destas não se voltem a repetir». Arménio Carlos participara antes em acções junto das Confecções Trindade (Tortosendo) e na Paulo de Oliveira (Boidobra).
Sobre o caso da Lanifato e o despedimento da delegada sindical, o grupo parlamentar do PCP dirigiu, no dia 20, uma pergunta ao ministro do Trabalho.
Na Preh contra trabalho «à borla»
Com efeitos na produção, devido à forte adesão dos trabalhadores – como informou o SITE Norte –, ocorreu dia 23, na fábrica da Preh Portugal, na Trofa, uma greve de duas horas por cada horário. Miguel Ângelo, coordenador do sindicato da Fiequimetal/CGTP-IN, destacou a contestação da imposição do trabalho ao sábado e do «banco» de horas, bem como o aumento dos salários e o pagamento do subsídio de trabalho nocturno, como principais objectivos desta luta, que deu seguimento a um protesto semelhante, no dia 8 de Março. Foi também salientada a elevada precariedade laboral, que na Preh atinge mais de 50 por cento do pessoal. Mesmo assim, comprovando que a luta vale a pena, a Preh passou a efectivos cem trabalhadores desde o dia 8, assinalou o dirigente.
Tal como no Dia Internacional da Mulher, também nesta sexta-feira muitos trabalhadores mantiveram durante algumas horas uma concentração à entrada da empresa, onde gritaram palavras de ordem contra o «trabalho ao sábado à borla» e por aumentos salariais, como mostra um registo em vídeo, publicado pela União dos Sindicatos do Porto.
Na concentração, com uma delegação do Partido, esteve Jaime Toga, da Comissão Política do PCP.