Um míssil para Caracas

Correia da Fonseca

O Parlamento Europeu atribuiu mais um Prémio Sakharov, instituído em 1988, quando a União Soviético ainda sobrevivia aos diversos males que a corroíam, e mais uma vez se serviu dele como arma política: atribuiu-o à oposição venezuelana que, como bem sabe quem o queira saber, se esforça por reinstalar na pátria de Hugo Chavez um regime de capitalismo puro e duro patrocinado por Washington à imagem e semelhança do já conseguido noutros estados da América do Sul. Foi um bonito gesto de solidariedade com os Estados Unidos que, coitados, é suposto que tenham vindo a ter uma despesa enorme com o financiamento da tal oposição venezuelana que, como facilmente se adivinha, não tem abundantes rendimentos próprios. Não é que os sucessivos governos norte-americanos alguma vez tenham chorado os milhões gastos com o apoio aos que, nos quatro cantos do mundo, se oponham a qualquer governo que de perto ou de longe pareça querer caminhar para o socialismo: nessa matéria os Estados Unidos até têm as mãos inesgotavelmente largas. E mais uma vez estão cheios de razão: Washington bem sabe que essas aparentes despesas são de facto investimentos com chorudos retornos, pois os dividendos chegarão quando ao capitalismo ianque for permitido tomar conta dos mais apetitosos recursos naturais dos países que são alvos de tão desveladas atenções. São tais e tantos os exemplos de casos assim pelo planeta fora que não fica margem para que se duvide dessa estratégia, mas cabe lembrar que precisamente a América do Sul é região onde tais situações há muito tenderam a constituir-se em regra. Contra a qual os povos vêm resistindo com as vitórias no limiar do futuro. Porque o processo histórico não recebe subsídios de Washington.

Onde se cita Asterix

Ainda assim, este Prémio Sakharov chegou ligeiramente atrasado relativamente ao que poderia ser o seu momento óptimo: é que chega poucos dias depois de o governo bolivariano da Venezuela ter obtido uma vitória estrondosa e obviamente significativa nas eleições para os governos de 23 dos estados que integram o país. Os que se aplicam a difundir a propaganda anti-venezuelana porque para tanto são bem pagos ou os que o fazem por convicção, e portanto a título gratuito, não hesitarão em alegar que as eleições foram viciadas e decorreram em clima de opressão. Mas estarão com azar: é que, como aliás o Avante! sublinhou em jeito de antecipado contraveneno, o escrutínio foi acompanhado por cerca de 1500 observadores venezuelanos e, mais convincentemente ainda, por 70 observadores internacionais. Ora, dele resultou uma esmagadora vitória bolivariana em 17 dos 23 estados em disputa. Dado que foi logo após os resultados destas eleições, verdadeiramente desmoralizadores para os que comandam o intenso bombardeamento propagandístico contra a Venezuela chavista, que o Parlamento Europeu disparou contra Caracas esta espécie de míssil propagandístico que é o Prémio Sakharov, bem se pode dizer que escolheram um mau momento. Ou, como diria Asterix, conhecido campeão da resistência contra poderes imperiais: estes eurodeputados são loucos!




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