A armadilha
Como se sabe e a televisão abundantemente informou com imagens, no passado fim-de-semana esteve grande parte do País, digamos que a metade dele situada ao Norte do Tejo, submetida a uma onda de incêndios como nunca se vira, nem mesmo no trágico 17 de Junho em Pedrogão. Mais de trinta mortos, muitas dezenas de feridos, um número incontado e talvez incontável de vidas destruídas, foi a consequência deste novo assalto do fogo sem que se saiba ao certo, longe disso, as suas causas. Sabemos que aqueles dias foram de muito calor, que a humidade do ar era baixa, que os ventos passavam acelerados, mas não sabemos se a conjugação destes e de outros eventuais factores naturais terão sido suficientes para que se desencadeasse tamanha desgraça. Aliás, esta ignorância estará na origem de explicações espontaneamente nascidas que atribuem os fogos à acção de incendiários semiloucos ou extremamente perversos, o que está por confirmar na grande maioria dos casos, na verdade na sua quase totalidade. Sabe-se também que nunca ocorreram incêndios tão terrivelmente generalizados e com tão graves consequências no tempo de qualquer dos governos que precederam o actual, mas está longe de ser provável que os elementos naturais tenham especial aversão por este executivo e pelas circunstâncias parlamentares que têm vindo a permitir a sua viabilidade.
Uma sinistra arma
Neste quadro, que é um tristíssimo quadro, foi talvez com um sentimento de surpresa que os telespectadores ouviram a TV informar que a direita política intimava o Governo a «pedir desculpa» aos portugueses pela calamidade desabada sobre o País: de facto, nem de longe constara que o primeiro-ministro Costa ou alguns dos seus ministros tivessem andado por esse país de isqueiro em punho a semear a desgraça havida, pelo que a intimação era estranha. Contudo, passada a possível surpresa inicial, a manobra era entendível: como a própria palavra indica, quem pede desculpa admite e confirma a existência de uma culpa sua, e por aí estaria o Governo a reconhecer a sua responsabilidade na desgraça acontecida. Usando outras palavras, digamos que ao pedir desculpa estaria o Governo a colocar-se num imaginário banco de réus, a confessar que não mereceria estar na gestão do País, à beirinha de convidar o PSD, com ou sem o compadre CDS, a voltar a ocupar o poder cuja perda tantas e tão pungentes saudades provoca à direita desalojada pelo voto popular. A sugestão de um pedido de desculpa era, pois, uma reles armadilha que, insinuando a existência de uma culpa, claramente colocava a calamidade dos fogos no arsenal das armas políticas que a direita maneja, neste caso sem o escrúpulo que as mortes, os feridos e as desgraças várias provocadas pelos incêndios deveriam motivar. A questão radicará talvez no facto de a direita parecer entender que não precisa de ter escrúpulos em qualquer circunstância por estar investida do direito permanente e quase divino a governar: que a governação do País seja muito ou sequer pouco de esquerda parece-lhe um pecado antinatura. Talvez lhe devamos dar um velho conselho: habituem-se!