Tancos: para lá do roubo ou do inventário

Rui Fernandes

Para o descrédito das Forças Armadas não contam com o PCP

LUSA

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«Há momentos em que a maior sabedoria é parecer não saber nada»
Sun Tzu


O caso de Tancos arrisca-se a ser o leitmotiv de uma próxima telenovela. Depois da declaração solene, há uns meses, do ministro da Defesa Nacional (MDN) com aviso aos parceiros da NATO, do primeiro-ministro, do PR, do CEME, do 1.º ministro com os Chefes dos Ramos e o CEMGFA, veio o MDN, em recente entrevista, colocar a hipótese de o problema se resumir a um problema de inventário/abate de material. Pelo meio ficou a suspensão de coronéis de exercício de comando de unidades e reconfirmações desse mesmo comando e, importa registar, aceitações, e também demissões e ruído, muito ruído, a que o MDN deu novo alento com a sua entrevista. O MDN parece ter seguido um pensamento de Groucho Marx que disse que «A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em todos os lados, diagnosticá-los incorrectamente e aplicar as piores soluções».

É certo que corre a investigação por via do Ministério Público e sobre essa parte do apuramento aguarda-se, sem afogadilhos ou pressões, as conclusões, coisa que parece criar excitação a alguns personagens. Aliás, é curioso que de cada vez que o Ministério Público trata de matérias relacionadas com as Forças Armadas se gerem excitações, como se as FA fossem uma quinta.

O que não se entende e aceita é que se chame à colação, passado este tempo, hipóteses que, a sê-lo, deveriam ter estado em cima da mesa antes das referidas entidades virem a público dizer o que disseram. Os órgãos superiores do Exército não sabiam qual o conteúdo existente nos paióis? Parece que sim, até porque foi publicada uma listagem do material. Essa listagem estava actualizada? Se não estava de quem é a responsabilidade? Com que regularidade é confirmado o conteúdo dos paióis ou será que isso não é feito? Se é, quando foi a última vez? Os órgãos superiores do Exército não sabiam do estado de degradação das protecções estáticas do local? Se não sabiam, o que andam a fazer? Sabiam e não fizeram nada? Propuseram investimento em obras e foi rejeitado? Quem rejeitou? É verdade que há um ano havia um pré despacho do CEME com vista às obras que nunca foi efectivado? Se sim, não há consequências? E se havia, então era conhecida a situação e nada acontece? As perguntas poderiam continuar, mas estas singelas questões permitem identificar responsáveis. Dirão alguns que não se está no domínio daquilo que realmente importa. Talvez! Mas nem por isso deixa de ser importante a resposta e a consequente responsabilização. E não será com certeza de um capitão, de um sargento e de um cabo (que segundo as notícias estão a ser alvo de processos disciplinares) por muitas quaisquer outras responsabilidades que cada um possa, eventualmente, ter. Aliás, é outra vez curioso que em acontecimentos sucessivos que envolvem o Exército desça a hierarquia dos castigos. Pode ser que sejam só meras coincidências, mas dá que pensar.

O show-off ganha terreno

Afirma o MDN que de imediato adoptou medidas – reparações, retirada do material para outro local, etc. Mas esse não é o ponto. O ponto está antes. Dirão alguns que o MDN não sabia e se não sabia não podia ter tomado medidas mais cedo. É certo! Mas então, quem não o informou? Nada acontece? E o actual CEMGFA e anterior CEME também não sabia de nada? Ninguém sabe de nada?

Num artigo (publicado no seu blogue em Setembro) sobre este tema, o coronel David Martelo escreve o seguinte «Quando o ministro afirma ao DN/TSF que, «no limite, pode não ter havido furto nenhum», está a acusar o Comando do Exército de completa incapacidade para, ao fim de cerca de 70 dias, ter alguma certeza sobre o que se passou em Tancos, que pudesse ser objecto de um sucinto Relatório Preliminar. O silêncio humilhante do Comando do Exército parece confirmar esta sombria realidade». E acrescenta: «O Exército tem de ser objecto de uma urgente reanimação, na qual não podem participar os quadros que o fizeram marchar, num pântano de inaceitáveis cedências e egoísmos carreiristas, para a deplorável situação em que se encontra. É urgente a ascensão ao topo do Exército de oficiais que deixem de ser os representantes do governo junto dos seus militares e sejam, acima de tudo, os representantes dos militares junto do governo».

Como de há muito repetimos e alertamos, as diversas transformações operadas ao longo dos anos também se traduziram em distorções no relacionamento da super-estrutura e nos quesitos valorativos para a ela ascender. E não nos centramos, como é fácil de perceber, no Exército, mas nos diversos Ramos. A frontalidade deu lugar aos salamaleques. O princípio da subordinação ao da submissão. O show-off ganha terreno na proporção inversa do aumento das dificuldades sociais, materiais e profissionais. As óssanas às forças nacionais destacadas procuram ofuscar a realidade das Forças Armadas como um todo.

Como afirmou o deputado do PCP Jorge Machado, para o descrédito das Forças Armadas não contam com o PCP.

 



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