Catalães votaram independência enfrentando feroz repressão policial
REFERENDO Enfrentando uma feroz repressão policial, milhões de catalães foram às urnas, dia 1, para expressar o seu apoio massivo à independência da região.
Violência policial agrava tensão na Catalunha
Apesar da brutal intervenção de milhares de agentes policiais, que encerraram centenas de locais de voto e impediram pela força milhares de pessoas de exercerem o seu legítimo direito de voto, uma parte considerável dos catalães foi às urnas manifestar a sua vontade.
Segundo dados divulgados pelo governo regional (Generalitat), na madrugada de dia 2, participaram na consulta 42 por cento dos eleitores inscritos (2,22 milhões), dos quais 90 por cento votaram a favor da independência. Oito por cento rejeitaram a independência e dois por cento votaram branco ou nulo.
Num dia marcado por cargas policiais injustificadas, que provocaram perto de 900 feridos, a Guarda Civil encerrou centenas de assembleias de voto, instaladas em escolas, muitas das quais estavam ocupadas pela população desde sexta-feira para assegurar a realização do referendo.
Todavia, de acordo com as autoridades regionais, 73 por cento das mesas de voto (num total de 4561) permaneceram abertas, em parte devido à presença massiva da população e à actuação ponderada dos Mossos d’Esquadra (polícia catalã), que, em vários casos relatados, se limitaram a registar concentrações populares, saindo do local sob aplausos.
Já a Polícia Nacional e a Guarda Civil não hesitaram em usar a força para expulsar pessoas, confiscar urnas e encerrar assembleias de voto, chegando a ocupar o pavilhão desportivo da escola em Girona, onde se previa que votasse o presidente do governo regional, Carles Puigdemont, que foi obrigado a votar noutro local.
Os relatos da jornada referem ainda que os bombeiros catalães se envolveram em confrontos com a polícia nacional espanhola e a Guarda Civil, procurando travar as cargas policiais sobre os cidadãos que pretendiam votar.
Para além da intervenção policial, Madrid tentou sabotar a votação através de «ataques e bloqueios informáticos constantes» ao sistema de registo dos votos, conforme denunciou o porta-voz da presidência e do Governo da Catalunha, Jordi Turull.
A repressão ordenada por Madrid, numa tentativa vã de impedir a consulta, foi condenada em várias manifestações que se realizaram no início da semana, designadamente em Girona e Barcelona. Na capital catalã centenas de pessoas, jovens universitários na sua maioria, desfilaram pela cidade apelando à greve. Alguns mostravam a boca fechada com adesivos em cruz para simbolizar a «repressão do governo espanhol».
Mostrando-se «muito perturbado» com a violência na Catalunha, o alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al Hussein, pediu uma investigação independente e imparcial sobre «todos os actos de violência».
Também a Comissão Europeia veio dizer que a «violência nunca pode ser um instrumento na política», reiterando, no entanto, que o referendo na Catalunha foi «ilegal» ao abrigo da Constituição espanhola.
Entretanto, o presidente do governo regional da Catalunha insistiu, na segunda-feira, no pedido de uma «mediação internacional» para o conflito catalão e exigiu a «retirada de todos os efectivos policiais» enviados para a região para impedir o referendo.
Puigdemont fez críticas à União Europeia, afirmando que tem de «deixar de olhar para o outro lado» perante «violações» da carta europeia de direitos fundamentais.
O governante esclareceu ainda que o governo catalão «não decidiu declarar a independência» e manifestou apoio à greve geral, realizada anteontem, terça-feira, 3, na Catalunha. «A greve geral ajuda a reforçar o que fizemos no domingo e o que faremos nos próximos dias. Deve servir para mostrar o nosso empenho cívico», disse Puigdemont.