A árvore

Henrique Custódio

A queda do car­valho de 200 anos no Fun­chal, que matou 13 pes­soas e feriu de­zenas de ou­tras no início da mais im­por­tante pro­cissão da Ma­deira, deu origem, no apu­ra­mento de res­pon­sa­bi­li­dades – que ainda se está a fazer – a um re­pen­tino vácuo na ave­ri­guação da pro­pri­e­dade da ár­vore e do ter­reno em que es­tava im­plan­tada: a Câ­mara Mu­ni­cipal iden­ti­ficou-a e ao ter­reno como pro­pri­e­dade da pa­ró­quia, o que esta re­futou, as­ses­so­rada por ad­vo­gados e pa­ra­fer­nália ju­rí­dica a tentar des­mentir os re­gistos ca­ma­rá­rios do ter­reno.

Ano­temos a pressa da pa­ró­quia em negar a pro­pri­e­dade da ár­vore, o que vem ab­so­lu­ta­mente ao ar­repio da fir­meza com que a Igreja Ca­tó­lica cos­tuma rei­vin­dicar a pro­pri­e­dade ma­te­rial.

Per­cebe-se porquê: nin­guém quer ser dono de um ob­jecto cujo de­sa­ba­mento matou 13 pes­soas numa pro­cissão, porque a posse desse ob­jecto im­plica, pelo menos, a res­pon­sa­bi­li­dade do dono pela sua con­ser­vação e ma­nu­tenção.

Dei­xemos de lado a tra­gédia da Ma­deira, cuja in­ves­ti­gação ainda nem saiu do adro (li­te­ral­mente) e ano­temos a usual im­pro­ce­dência de qual­quer res­pon­sa­bi­li­zação, mesmo que moral, por actos pú­blicos ou de foro pú­blico pra­ti­cados por res­pon­sá­veis po­lí­ticos na ad­mi­nis­tração do Es­tado.

Pode haver (e há-os, com far­tura) pro­cessos ju­di­ciais apli­cados a res­pon­sá­veis po­lí­ticos, com fartas in­ves­ti­ga­ções e de­moras pro­ces­suais de­cor­rentes, mas feitas as contas, essas in­ves­ti­ga­ções acabam ge­ral­mente em águas de ba­ca­lhau e os pro­ta­go­nistas se­guem lam­pei­ra­mente as suas vidas, in­to­cados e in­to­cá­veis, pelo menos na apa­rência dos factos.

Dos casos pa­ra­dig­má­ticos, faz vulto o caso de Paulo Portas que, nas lides mi­nis­te­riais, foi res­pon­sável po­lí­tico pela aqui­sição rui­nosa de dois sub­ma­rinos de dois mil mi­lhões de euros e de largas de­zenas de veí­culos blin­dados (para subs­ti­tuir as «Chai­mites» da guerra co­lo­nial) que jazem, às peças e em su­cata, nuns ar­ma­zéns na zona in­dus­trial do Bar­reiro, largas cen­tenas de mi­lhões de euros de­pois, que o erário pú­blico, pela alegre as­si­na­tura do mi­nistro Portas, pagou também ale­gre­mente.

No mundo au­tár­quico, que está nos bas­ti­dores de mais uma con­tenda elei­toral, há também casos pa­ra­dig­má­ticos a voltar à ri­balta. Gente que foi jul­gada e até con­de­nada em tri­bunal, por acu­sa­ções re­la­tivas aos res­pec­tivos exer­cí­cios au­tár­quicos, voltam, fa­ceiros, a re­can­di­datar-se a novos man­datos – casos de Isal­tino Mo­rais, Va­lentim Lou­reiro ou Nar­ciso Mi­randa – limpos de mágoa ou má­cula e de novo prontos para a acção.

Nos 43 anos de Por­tugal de Abril há já uma vasta ga­leria de per­so­na­gens go­ver­na­men­tais ou au­tár­quicas a passar pelas ma­lhas da Jus­tiça, re­sul­tando dessas de­mandas uma alar­mante con­ver­gência com o caso da ár­vore que abateu no Fun­chal: no final, nin­guém é dono dela.




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