«Reforma florestal» do Governo não é a resposta às necessidades da floresta nacional

As­sem­bleia da Re­pú­blica aprovou dia 19, em vo­tação final global, um con­junto de di­plomas da cha­mada «re­forma flo­restal» de­sen­ca­deada pelo Go­verno.

Os pro­blemas da flo­resta são de falta de meios e in­ves­ti­mentos

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Apre­sen­tada pelo Exe­cu­tivo como a «mais pro­funda re­forma flo­restal» por­tu­guesa, se­gundo o mi­nistro da Agri­cul­tura Ca­poulas Santos, as normas apro­vadas estão porém aquém do que seria ne­ces­sário para re­solver os pro­blemas da flo­resta por­tu­guesa, como desde o início do pro­cesso, em Ou­tubro de 2016, o PCP sempre su­bli­nhou.

Pode haver mesmo o risco de haver quem pense que as me­didas agora apro­vadas re­pre­sentam uma in­versão do ca­minho há muito se­guido, um ponto final na cró­nica falta de meios e re­cursos hu­manos e fi­nan­ceiros, o que na óp­tica do PCP seria uma tre­menda «ilusão».

«Os pro­blemas da flo­resta são de falta de meios, falta de in­ves­ti­mento, falta de re­cursos hu­manos e do­ta­ções fi­nan­ceiras para co­locar em prá­tica aquilo que há muito está le­gis­lado», lem­brara na vés­pera da vo­tação em ple­nário, fa­lando aos jor­na­listas no Par­la­mento, o líder par­la­mentar do PCP.

«O PCP não re­cusa a ideia de que as leis podem sempre ser me­lho­radas, mas a ideia de que por si só a apro­vação destas leis ga­rante a in­versão do ca­minho que tem sido se­guido é uma fraude», as­se­verou João Oli­veira, fa­zendo um ba­lanço dos tra­ba­lhos em co­missão.

Para o pre­si­dente do Grupo Par­la­mentar do PCP, os pro­blemas do ca­dastro, da pro­dução flo­restal, da de­fesa da flo­resta contra in­cên­dios não exigem novas leis, «exigem sim meios para cum­prir aquilo que já está le­gis­lado, para ga­rantir o cum­pri­mento das obri­ga­ções que já estão de­fi­nidas na lei».

La­cunas

Daí a po­sição muito cri­tica as­su­mida pelo PCP desde o início em re­lação a esta re­forma, não apenas por ra­zões de forma – não foram con­sul­tadas or­ga­ni­za­ções que in­tervêm no sector – mas também por ra­zões de con­teúdo.

João Oli­veira de­ta­lhou-as, apon­tando desde logo as­pectos ne­ga­tivos quer por pro­postas con­tidas nos di­plomas go­ver­na­men­tais quer por ou­tras que deles fi­caram au­sentes, como foi o caso da ine­xis­tência de re­fe­rência aos bal­dios.

Por outro lado, ex­pli­citou, esta re­forma também não tem as­so­ciado o res­pec­tivo su­porte fi­nan­ceiro que as­se­gure a sua con­cre­ti­zação, a do­tação dos meios ne­ces­sá­rios para que seja cum­prida.

Afastar esses as­pectos mais ne­ga­tivos da re­forma foi, pois, o que a ban­cada co­mu­nista pro­curou fazer no de­bate deste pro­cesso em sede de es­pe­ci­a­li­dade, bus­cando si­mul­ta­ne­a­mente a ob­tenção de «al­guns avanços», o que em parte foi con­se­guido (ver caixa).

Contas feitas, sem deixar de va­lo­rizar o que foi al­can­çado graças à in­ter­venção da sua ban­cada na AR, o PCP con­si­dera que o con­junto de di­plomas não dá a res­posta de­se­jável às «ne­ces­si­dades da flo­resta por­tu­guesa, sendo ne­ces­sário ve­ri­ficar, no­me­a­da­mente em sede de Or­ça­mento do Es­tado, quais serão os meios afec­tados para o cum­pri­mento da le­gis­lação exis­tente».

Voto con­se­quente

O voto do PCP nas di­versas pro­postas em apre­ci­ação pautou-se sempre por ra­zões de prin­cípio. Em par­ti­cular em re­lação ao ca­dastro, por exemplo, foi lem­brado que há mais de 30 anos que esta questão se ar­rasta por falta de meios e in­ves­ti­mento. E por isso o de­pu­tado co­mu­nista João Ramos propôs em co­missão que em re­lação ao Sis­tema de In­for­mação Ca­das­tral Sim­pli­fi­cado e ao banco de terras a vo­tação fosse adiada para uma me­lhor con­si­de­ração em Se­tembro, não tendo sido acom­pa­nhado nessa pre­tensão por PS e BE. Ainda assim, tendo a pro­posta sobre o ca­dastro sido ex­pur­gada de al­guns dos seus ele­mentos mais per­ni­ci­osos, a ban­cada co­mu­nista de­cidiu votá-la fa­vo­ra­vel­mente.

No que se re­fere à pro­posta de cri­ação do banco de terras, o PCP nunca ad­mitiu o voto fa­vo­rável, pelo que ele re­pre­senta de ali­e­nação por parte do Es­tado das suas res­pon­sa­bi­li­dades de gestão flo­restal e do seu pa­tri­mónio, da sua en­trega a prazo aos in­te­resses pri­vados, bem como de ca­minho para con­cen­tração fun­diária nos grandes pro­pri­e­tá­rios. Daí em co­missão par­la­mentar este ponto ter sido alvo de se­vera crí­tica do PCP, que apontou o dedo às op­ções do BE de ali­nha­mento com o PSD e o CDS-PP na «obs­ta­cu­li­zação da apro­vação de al­gumas das me­didas que iriam re­solver pro­blemas de fundo».

«O BE aliou-se ao PSD e ao CDS-PP, ga­ran­tindo a apro­vação de me­didas que per­mitem a pri­va­ti­zação de terras do Es­tado, que per­mitem a con­cen­tração da pro­pri­e­dade em quem já detém áreas de grande di­mensão, que per­mitem o es­bulho dos pe­quenos pro­pri­e­tá­rios ru­rais em nome dessa con­cen­tração agrí­cola, no­me­a­da­mente vi­a­bi­li­zando essas pro­postas re­la­ci­o­nadas com as ma­té­rias que têm que ver com as terras sem dono co­nhe­cido», de­nun­ciou João Oli­veira nessa de­cla­ração feita no dia an­te­rior ao des­fecho final do pro­cesso le­gis­la­tivo, que aca­baria nesse ca­pí­tulo por re­velar-se fa­vo­rável, dado o chumbo do di­ploma blo­quista.

Não ao es­bulho

Para o PCP, esta questão ocupa um lugar cen­tral, aten­dendo ao pro­blema que seria cau­sado a mi­lhares de por­tu­gueses por esse País fora caso estas pro­postas fossem con­cre­ti­zadas.

Alu­dindo ao tema, sexta-feira, 21, Je­ró­nimo de Sousa rei­terou na Co­vilhã a ideia de que a cri­ação de um banco de terras re­pre­sen­taria «um es­bulho» aos pe­quenos pro­pri­e­tá­rios e agri­cul­tores.

Aliás, as ma­té­rias re­la­ci­o­nadas com terras sem dono co­nhe­cido cons­ti­tuem um dos pontos em que o PCP mais ba­ta­lhou junto do Go­verno para que não se avan­çasse no sen­tido do es­bulho dos pe­quenos pro­pri­e­tá­rios, a par da pri­va­ti­zação das terras do Es­tado.

As­pecto ne­ga­tivo no pa­cote apro­vado, e por isso me­re­cedor do voto contra dos de­pu­tados co­mu­nistas, em co­missão e ple­nário, foi a trans­fe­rência para as au­tar­quias de res­pon­sa­bi­li­dades que o Es­tado até hoje nunca cum­priu re­la­ti­va­mente às re­gras na de­fesa da flo­resta contra in­cên­dios (quer em re­lação às redes de faixas de se­gu­rança de gestão de com­bus­tível, quer em re­lação às ha­bi­ta­ções ou ins­ta­la­ções de trans­porte de energia, ou ou­tras). Foi assim com «vivo re­púdio» que o PCP re­gistou o facto de ter sido o BE, com o PSD e o CDS-PP, a ga­rantir que essa me­dida fica con­sa­grada na lei, mesmo de­pois de ter sido re­pe­tida a vo­tação e de se ter visto qual seria o seu re­sul­tado.

Tal como é ne­ga­tiva a in­vi­a­bi­li­zação da pro­posta do PCP que previa a com­pen­sação dos pro­pri­e­tá­rios das terras onde essas faixas de se­gu­rança vão ser ins­ta­ladas.

Avanços pela acção do PCP

A obri­gação do Go­verno criar, até 2019, as equipas de sa­pa­dores flo­res­tais em falta, vi­sando atingir o ob­jec­tivo na­ci­onal de 500, cons­titui uma das me­didas apro­vadas neste pro­cesso le­gis­la­tivo por ini­ci­a­tiva do PCP.

Da vo­tação final global da cha­mada Re­forma Flo­restal, não obs­tante a pre­sença de ele­mentos que em sua opi­nião são «ne­ga­tivos», vá­rios ou­tros de sen­tido po­si­tivo foram al­can­çados graças à in­ter­venção da ban­cada co­mu­nista.

O Go­verno fica igual­mente obri­gado a criar o Corpo de Guardas Flo­res­tais e, noutro plano, a criar li­nhas de fi­nan­ci­a­mento mo­du­lado para apoiar o equi­pa­mento de má­quinas agrí­colas com me­ca­nismos de se­gu­rança.

Das pro­postas do PCP re­sultou ainda a obri­gação do Es­tado re­a­lizar os pro­ce­di­mentos ad­mi­nis­tra­tivos ne­ces­sá­rios à re­a­li­zação da in­for­mação ca­das­tral sim­pli­fi­cada, dis­pen­sando desse ónus os pro­pri­e­tá­rios, que podem re­correr aos téc­nicos das en­ti­dades pú­blicas para a tra­mi­tação dos pro­cessos, com apoio às pes­soas com in­su­fi­ci­ên­cias eco­nó­micas.

Im­por­tante é também a as­sumpção pelo ICNF da gestão na­ci­onal da mancha de eu­ca­lipto, de forma a apro­ximar-se pro­gres­si­va­mente da área pre­vista na Es­tra­tégia Na­ci­onal Flo­restal, a co­meçar pelas pro­pri­e­dades de maior di­mensão.

O es­cla­re­ci­mento de que o eu­ca­lipto não pode ser plan­tado em zona de re­gadio nem em largas man­chas con­tí­nuas foi outro ponto ob­tido no pro­cesso de dis­cussão e vo­tação na es­pe­ci­a­li­dade por acção do PCP, que viu ainda in­cluída a sua pro­posta que con­fere aos pro­pri­e­tá­rios flo­res­tais afec­tados pelas faixas de gestão de com­bus­tível a ga­rantia de que serão res­sar­cidos.

Ma­té­rias em jogo

Os di­plomas do Go­verno apro­vados em vo­tação final global (já com as al­te­ra­ções in­tro­du­zidas e vo­tadas na es­pe­ci­a­li­dade na co­missão de Agri­cul­tura) re­ferem-se às ac­ções de ar­bo­ri­zação e re­ar­bo­ri­zação, à al­te­ração do Sis­tema de De­fesa da Flo­resta contra In­cên­dios e à cri­ação de um sis­tema de in­for­mação ca­das­tral sim­pli­fi­cada.

Já o di­ploma do Go­verno para criar o banco na­ci­onal de terras e o fundo de mo­bi­li­zação de terras foi re­jei­tado, com votos contra do PSD, CDS-PP, PCP e PEV e os votos fa­vo­rá­veis do PS, BE e PAN.

Para a pró­xima sessão le­gis­la­tiva ficou a vo­tação do di­ploma do Exe­cu­tivo para criar be­ne­fí­cios fis­cais para en­ti­dades de gestão flo­restal, a re­a­lizar con­jun­ta­mente com um di­ploma do BE sobre a cons­ti­tuição de uni­dades de gestão flo­restal, de­vido ao adi­a­mento po­tes­ta­tivo por este re­que­rido.

Sub­me­tidos à vo­tação foram ainda dois pro­jectos de lei do BE sobre ar­bo­ri­zação e a cri­ação do banco pú­blico de terras agrí­colas, tendo ambos ob­tido apenas o voto fa­vo­rável do seu autor. Chum­bado foi também o pro­jecto de lei do PSD e do CDS-PP re­la­tivo ao sis­tema ca­das­tral.




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