Marchar, marchar!
Foi na passada segunda-feira, na SIC e pela hora do almoço, mas não são necessárias imaginação nem audácia para se admitir que podia ter acontecido em qualquer outro canal e em qualquer outro noticiário: o repórter entrevistava o presidente da Câmara de Pedrogão Grande e era quase confrangedor ver-se como o pobre rapaz se esforçava para arrancar do interrogado palavras que responsabilizassem o governo pela suposta demora na chegada dos auxílios que a solidariedade nacional já permitira reunir, se não pelo próprio incêndio que devastou a região. Convém acrescentar que o interrogado resistia à pressão e, numa atitude de escassa compreensão pelos prováveis interesses do repórter, respondia de tal forma que não permitia a responsabilização do governo, desse modo podendo pôr em causa o apreço pelo profissional dos seus legítimos superiores. A questão é que o jovem, aliás já não tão jovem quanto o próprio porventura desejará, não estava a conseguir juntar sequer uma pequena quantidade de lenha à imaginável fogueira a que o governo deve ser lançado. E desse modo desertava de facto da ofensiva geral desencadeada contra o executivo por todos os meios, com todos os materiais, incluindo a desgraça que varreu os concelhos de Pedrogão e Góis, mais as que vierem por acréscimo, designadamente a que já aconteceu em Alijó, pois todas as catástrofes são úteis e até desejáveis se municiarem o bombardeamento deste governo verdadeiramente herético e transgressor dos bons costumes.
Instrutivas e gratuitas
De facto, é tal o comportamento das diversas operadoras de TV que quase se imagina um fabuloso pesadelo que justificaria a mobilização geral e a ordem bélica de «marchar, marchar!»: o de que, a coberto da escuridão das noites, o PM António Costa, andaria por esse Portugal adentro a semear incêndios para desviar a atenção das gentes do mais importante: a anulação do lindo trabalho do governo do dr. Passos Coelho. Foi o tempo em que um cérebro PSD explicou que «os portugueses estavam pior, mas o país estava melhor». Depois disso, os tais que estavam pior decidiram democraticamente, pelo voto que colocou em minoria na AR a coligação PSD/CDS, que já bastava de tanta agressão, e por isso mandaram o dr. Passos passear o seu emblema para fora da bancada governamental. Mas, como a TV claramente vem mostrando, ele foi a ranger os dentes e a prometer vinganças literalmente diabólicas. Não veio o senhor Diabo, veio o fogo. Pelos vistos, a substituição serve ao PSD, seus aliados e apoiantes, também no interior dos «media». Dia após dia, até hora após hora, é assistirmos à ofensiva na televisão como que em obediência a vozes de comando aliás dispensáveis: quem está ao serviço de patrões claramente identificados sabe dos seus desejos e de como convém obedecer-lhes, que o mercado de trabalho está mau. Neste sentido, estará o atento telespectador a ser servido por abundantes lições de obediência e de estratégia manipulatória. Agradeçamos: não só podem ser-nos instrutivas como são gratuitas.