A estreia
Setenta e dois anos, mais mês menos mês, depois do sinistro 6 de Agosto de 1945 em que os Estados Unidos lançaram sobre uma população civil a primeira bomba atómica, foi usada no Afeganistão o engenho descrito como sendo a mais poderosa bomba não nuclear existente no arsenal de guerra USA. Com o seu já habitual pendor para as piadas macabras, os norte-americanos chamaram-lhe «moab», sigla construída com as iniciais de «mother of all bombs», «mãe de todas as bombas», designação inspirada nos tempos da invasão do Iraque que, como sabemos, foi a operação que conduziu o Médio Oriente à angustiante situação em que se encontra hoje. Diferentemente do acontecido em 45, quando a bomba A chacinou muitos milhares de civis inocentes e indefesos, a «moab» só terá vitimado uma trintena de afegãos supostamente militantes do Daesh, o que obviamente está por provar. A ser assim, desta vez terão sido poucas as mortes, excepto para os que considerem que uma só morte por acto de guerra já é excessiva e inaceitável. E esta inaceitabilidade reforça-se se considerarmos que o uso desta superbomba não decorreu de razões estratégicas ou tácticas em circunstâncias locais, mas sim com o objectivo de intimidar, isto é, de meter medo aos governantes de um outro país situado a muitos milhares de quilómetros de distância. O que é uma motivação verdadeiramente singular para a estreia de um novo instrumento de morte sem que, contudo, alguém tenha formulado alguma estranheza. Pelo que se poderá concluir que as ameaças de morte, condenáveis e punidas nas relações entre indivíduos, são aceitáveis no quadro das relações entre estados.
Informação com endereço
Mas talvez valha a pena que reflictamos um pouco sobre a sinistra estreia da «moab». Em primeiro lugar, notar-se-á que é não apenas um acto de guerra aparentemente gratuito, porque não integrado num movimento militar local, nem sequer apenas uma advertência à Coreia do Norte, aparentemente teimosa no seu desejo «proibido» de se tornar potência nuclear. Quanto a este ponto, lembremos o que é sistematicamente ocultado: que na Coreia do Sul, de facto dominada e colonizada pelos Estados Unidos, estão instaladas armas nucleares, e será escusado dizer para onde estão apontadas. Para além disto, contudo, é claro que o lançamento da nova superbomba pode ser entendido como uma informação endereçada à Rússia que, aliás, já em resposta anunciou que também por lá tem idênticas ferramentas. Neste quadro, o que talvez mais possa impressionar os cidadãos telespectadores inocentes e impotentes é o sinal de poder estar em vias de extinção a aparente tendência de apaziguamento e talvez entendimento entre os Estados Unidos de Trump e a Rússia de Putin que teria sido o mais positivo entre os raros sinais positivos emergentes da eleição do actual presidente norte-americano. A questão, é claro, é que a Paz é o mais importante objectivo de qualquer cidadão minimamente lúcido em qualquer lugar do mundo. E a estreia deste novo engenho para assassínios em massa é, a um tempo, relativamente a esse mais que legítimo anseio, provocação e ameaça.