O beco

Henrique Custódio

Os tais índices económicos, sobretudo o do abaixamento do défice, exigidos e impostos a Portugal com brutal sobranceria, afinal não interessam nada a quem manda na Europa.

É o que se depreende do que ouvimos do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble, a zurzir (de novo) «fragilidades» do nosso País e a apontar novos resgates.

Vemos assim que, para Schauble, os tais índices económicos nada significam.

Na sua ofensiva, é o próprio Schauble a fazer tábua rasa quer do défice português de 2,1 por cento em 2016, quer de diversos outros índices pretensamente caros a Bruxelas (descida do desemprego, reanimação económica, etc.), onde o nosso País também melhorou.

Os desmandos neoliberais da especulação bolsista desenfreada, que desembocaram na profunda crise capitalista que eclodiu em 2007-8 com o rebentamento da «bolha» do subprime nos EUA, tiveram como consequência directa uma onda de falências bancárias e de fundos de investimento, cujos custos estão a ser integralmente suportados pelos povos do planeta.

Recorde-se que o incensado Obama, mal tomou posse e a braços com a «crise do subprime», tratou de injectar 700 mil milhões de dólares do povo norte-americano na rede bancária nacional, desconjuntada pelas fraudes monumentais dos seus responsáveis.

Desenhada na prancha dos interesses do grande capital monopolista que, na Europa, tem a Alemanha a liderar, a organização da União Europeia assentou na ditadura dos défices, nos «resgates» leoninos, na retirada de soberania aos estados devedores e na imposição de cortes brutais nos rendimentos e direitos dos trabalhadores, tal como nas pensões, no emprego e nos serviços essenciais do Estado, como a Saúde, a Educação e a Segurança Social.

A teia urdida na Europa com os pactos «orçamentais» ou de «estabilidade», presididos pela «ditadura do défice» que não pode ultrapassar os três por cento (e por que não quatro ou dois ou sete?), emerge e cresce à boleia da crise do subprime, criando uma situação na UE onde o poder económico é que tem voz, impondo-a a quem não a tem (os «países do Sul» e correlativos).

Dessa situação deriva uma outra, bem real e dura: uma Europa dividida entre um grupo de países desenvolvidos que impõem aos restantes medidas draconianas de funcionamento que, além de proporcionarem ganhos avantajados aos emprestadores com os juros dos empréstimos às dívidas soberanas (os da «Europa desenvolvida»), estrangulam os devedores com dívidas impagáveis e o definhamento produtivo.

A União Europeia está num beco. Sair dele passa pela reformulação das dívidas soberanas e dos seus pagamentos, bem como na devolução de direitos soberanos dos estados alienados em «pactos» nem sequer referendados.

Se não, a UE ficará num beco sem saída – a não ser pela força, a da luta dos povos.

 



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