O negócio dos resgates
Quem tem lucrado com os multimilionários resgastes da banca? A resposta é revelada no último estudo do Transnational Institute (TNI), divulgado dia 22.
O trabalho, assinado por Sol Trumbo Vila e Matthijs Peters, recorda que, entre 2008 e 2014, os vários estados da União Europeia destinaram 1,5 biliões (milhões de milhões) em vários planos de salvamento da banca.
Deste montante, estimado pela Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia, 213 mil milhões foram declarados como perdas irrecuperáveis, segundo dados do Eurostat.
Os investigadores do Transnational Institute, organização não lucrativa com sede na Holanda, salientam que os recursos públicos desbaratados na banca equivalem aos orçamentos anuais dos serviços nacionais de Saúde da Espanha, Suécia, Áustria, Grécia e Polónia.
O desvio destas colossais verbas para cobrir perdas dos bancos traduziu-se na degradação da qualidade dos serviços públicos, criando novas tensões sociais que não tardaram a ter efeitos políticos.
Assinalando que o debate pré-eleitoral na Alemanha, França e Holanda (tal como o «Brexit» no Reino Unido no ano passado) está centrado na questão dos imigrantes e refugiados e da sobrecarga que representam para os sistemas nacionais de protecção social, os autores convidam os cidadãos a reflectirem sobre a magnitude e consequências dos programas europeus de resgate da banca.
O papel duplo das Big Four
Paradoxalmente, estes dispendiosos programas que esvaziaram os cofres públicos e levaram ao sobre-endividamento dos estados foram concebidos e acompanhados pelas mesmas empresas que antes haviam certificado as contas das entidades falidas.
Apesar de nunca terem alertado para o alto risco dos negócios da banca, as consultoras EY, Deloitte, KPMG e PWC, também conhecidas como as «Big Four», continuaram a fazer lucros milionários, desta vez aconselhando estados e instituições sobre a maneira de salvar os bancos.
Para Susan George, presidente do TNI «é necessário abordar a dependência dos estados de um sector financeiro dominado por empresas e interesses privados, assim como criar alternativas públicas e democráticas que substituam o oligopólio privado das empresas de auditoria». «A banca pública pode ser um primeiro passo para fortalecer as instituições públicas, de modo a que estas possam administrar melhor os assuntos financeiros e bancários e responder ante novas crises», refere Susan George.