Nos dias de ser bom
Como facilmente se adivinha, o título desta dupla coluna é uma pobre glosa de um inesquecível poema de António Gedeão, ele próprio poeta inesquecível e de facto inesquecido ao contrário do que vem acontecendo com José Gomes Ferreira e muitos outros. Este lamentável e também sintomático desaparecimento da poesia e dos poetas na nossa memória colectiva terá muito a ver com a ausência da poesia nos diversos canais da televisão portuguesa, bem se sabendo que todos eles mostram mais apreço pelos futebóis e seus sábios do que por Gedeão e seus pares na comoção e de facto na intervenção, pois acontece que a poesia intervém na vida social mesmo quando não parece fazê-lo. Talvez a actual presença de um poeta no topo do Ministério da Cultura possa ser um factor que contrarie esta desafeição da TV em relação à poesia, nem que seja por alguma ligeira e neste caso útil intenção de lhe agradar, já que o Ministério da Cultura voltou agora a ter alguma autoridade sobre a televisão, mas esta é uma probabilidade muito remota. De caminho, registe-se que na obra poética de Luís Filipe de Castro Mendes figuram a dada altura, como tema, os «mercados» que vêm surgindo como algozes do nosso País e do seu povo, muito se desejando, como se compreenderá, que o poeta não só nunca esqueça esse seu momento poético mas também que, caso se torne adequado, o lembre a quem eventualmente dele precise de ser lembrado. Porque se os amigos são para as ocasiões, também os poetas o devem ser.
Onde se lembra Castrim
Voltemos, porém, à quadra que atravessamos para registar o evidente: que o Natal está nos diversos canais da televisão portuguesa na sua dupla forma: na habitual ofensiva comercial consubstanciada na intensificação publicitária e no registo de iniciativas de índole caritativa, em grande parte segundo o velho modelo da «sopa dos pobres» e do «abrigo para os sem-abrigo». Com a vénia devida ao Presépio, é imperioso lembrar que o Natal passa depressa e que as terríveis carências ficam sem que se saiba o que foi feito para que no próximo Natal não haja gente sem tecto nem duas refeições por dia. Isto porque o Natal, além se ser tão sonora e luminosamente celebrado, deverá ser um estímulo. Permita-se que se recorde aqui um poemeto de Mário Castrim, esse nome enorme do jornalismo em geral e da crítica de TV em especial: «Passado o Natal, /quem é o que era / negou-se à Primavera que em si tem. / Não reverdeceu, / ficou pequenino, / perdeu-se no cominho.» Esta é apenas, já se vê, uma minúscula homenagem a um homem que continua a fazer-nos muita falta até para nos falar desta televisão comercialona que muitas vezes parece continuar a vender a sua alma ao Diabo. Talvez, quem sabe?, seja este o Diabo cuja chegada o dr. Passos anunciou. Agora, como se sabe, transferiu a sua expectativa para Melchior, Baltazar e Gaspar, os míticos reis que trouxeram ao presépio mirra, incenso e oiro. É claro que isto do oiro seria especialmente bem-vindo, mas o mais certo é que esta previsão do dr. Passos seja mais um erro seu. Temos que entender: o doutor ainda não está refeito da decepção que sobre ele desabou e basta olhar para a lapela do seu casaco para nos certificarmos de que o trauma continua: o emblema que teima em ostentar sugere que ele continua a considerar-se primeiro-ministro de Portugal embora numa espécie de exílio, um pouco como tradicionalmente se diz que alguns doentes julgam ser Napoleão. Não é: é o líder do maior partido da oposição, o que aliás não é pouco. Porque estamos nos «dias de ser bom», desejemos-lhe rápida cura ainda que não possamos desejar-lhe muitas prosperidades no próximo ano. É que a eventual prosperidade (política, entenda-se!) do dr. Pedro Passos Coelho seria o regresso da espoliação do povo português, a vinda de novas infelicidades em lugar da mirra, do incenso e do oiro que os magos trariam. Assim, o Diabo seria um pouco ele próprio. O povo nos livrará do regresso desse pesadelo.