O outro incêndio

Correia da Fonseca

Desta vez o «Prós e Contras» aplicou-se a discorrer acerca do que é necessário para obstar a que a floresta portuguesa não desapareça completamente em consequência da próxima época de incêndios com início previsível lá para os fins da Primavera próxima, se não for antes. É claro que o tema escolhido é importante e também claro que esta é a altura certa para o abordar, com o risco situado ainda a alguns meses de vista, o que dá margem temporal para a execução de algumas medidas que se entenda serem adequadas e fundamentais. Entretanto, porém, acontece que outras infelicidades ou catástrofes desabam sobre o País, algumas delas sem calendário certo e independentes da chuva intensa que provoca inundações ou do calor que estará na origem dos incêndios. Por isso é desejável, e seria interessante que também fosse esperável, que um destes dias o «Prós e Contras» se dedicasse a reflectir acerca de uma peculiar espécie de incêndio que percorre o País de lés a lés sem que pareça atrair a atenção dos muitos peritos que frequentam os estúdios de televisão com eventual proveito dos telespectadores e mais que provável proveito para si próprios. E, contudo, esse incêndio na verdade terrível foi referido um dia destes pelo menos por um dos canais que despejam em nossas casas informações acerca do que vai pelo País e pelo mundo. Infelizmente, porém, aconteceu neste caso o que muitas vezes ocorre também com situações ou acontecimentos de primeiríssima importância: foi noticiado em breve linha que passou no rodapé do ecrã e mal deu tempo a que déssemos por ela. Dizia-nos ela que em Portugal existem 340 mil trabalhadores desempregados que não recebem qualquer apoio pecuniário. Isto é: que estão de facto abandonados ao efeito de uma espécie de incêndio sem fogo capaz de lhes ir destruindo a casa, o minguado património, os projectos ainda que muito modestos, a mínima alegria.

De facto expulsos

Ora, é sabido que os diversos canais de televisão gostam muito de desgraças, que tendem a fazer delas o prato principal dos seus noticiários, e que este peculiar apetite é compartilhado também pela RTP, operadora pública, ainda que talvez com menor intensidade, questão esta aliás difícil de avaliar com rigor. Sendo assim, pareceria muito adequado que a RTP1, a que transmite o «Prós e Contras» e diariamente nos fala de infelicidades de vária ordem, um destes dias, no âmbito ou não do programa apresentado por Fátima Campos Ferreira, viesse falar-nos desse outro incêndio que reduz centenas de vidas portuguesas a cinzas, isto é, a uma desolada mistura de amargura e desesperança. Recordemos: são, segundo a TV nos contou na quase confidência de uma legenda apressada, trezentos e quarenta mil cidadãos que sem qualquer apoio estatal estão expulsos do binómio emprego-salário que é a circunstância natural de qualquer trabalhador em sociedade civilizada. Acresce que esses muitos milhares de cidadãos não estarão sós na sociedade portuguesa: terão filhos provavelmente menores, terão pais eventualmente necessitados de cuidados. De qualquer modo, têm decerto o direito de viver no âmbito de uma realidade colectiva em que por agora estão caracterizados de um concreto modo: são «os desempregados» e de facto os expulsos da solidariedade estatal que nunca os deveria ter abandonado. Para além disso, e passando para o que talvez possa ser designado como uma «óptica da televisão», imaginemos as reportagens e/ou as abordagens que acerca desta situação e das suas consequências na vida quotidiana podem ser feitas com óbvio benefício da informação ao País e da atenção devida a compatriotas em dramáticas dificuldades. Imaginemo-las e lamentemos a sua ausência. Que de facto é, por omissão, uma cumplicidade com o tal incêndio sem fogo nem árvores, mas talvez com incendiários, que vai lavrando em Portugal.




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