«Aleluia!»

Nuno Gomes dos Santos

LUSA

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Não falo do Prémio Nobel nem alimento as hostes de quem aplaude ou de quem contraria a sua atribuição a Robert Zimmerman, Bob Dylan por opção e nome que se lhe colou para sempre, Bob de Robert, Dylan do poeta que marcou a beat generation (geração beat), anos 50 do século passado. Falo de outro homem, também poeta, também cantor e compositor, falecido há pouco, num país a Norte daquele onde Dylan, o nobel, vê que the times they are achanging (os tempos que eles estão a mudar) não vão na direcção sonhada, de paz, de fraternidade, de tolerância, antes invertem (ainda mais) a marcha no sentido da xenofobia, do machismo, do racismo e da prepotência.

Esse poeta, com letras grandes como são as das suas cantigas, é Leonard Cohen e lembrei-me de falar dele porque o Nobel foi parar às mãos de um seu «parceiro de jogo», cantador de coisas da vida, autor e compositor das cantigas que canta. Direi pouco. Assinalo a sua maneira intimista de cantar, as suas melodias anti-agressivas e por vezes acariciantes, embora firmes, a sua postura nos palcos ou nos estúdios, grave, séria, própria de quem sabe que faz bem o que faz e que, isso que faz, é bom. E falo das suas palavras, das palavras de um cantautor coerente, dos seus poemas ditos por música de uma forma que serve as palavras e a percepção e o entendimento delas.

Para sempre ficarão «So Long, Marianne», «Dance Me Till the End of Love» ou «Hallellujah», para só citar estas sem me adiantar muito no rol das inúmeras canções que são poesia cantada, só comparável, na mesma língua, com a praticada por poucos seus pares, como Neil Young ou o próprio Dylan.

Não opinando sobre a atribuição do Prémio Nobel ao Dylan de «Blowing in the Wind», o facto do galardão ter sido concedido a um cantautor fez-me pensar noutros músicos poetas intérpretes, desde Brel a José Afonso, de Chico Buarque a Léo Ferré, de Neil Young a Cohen e a bendizer canções com palavras que valem a pena ser cantadas, poemas que entoamos felizes porque aquela música quer mesmo dizer o que aquelas palavras dizem, porque aquelas palavras ficaram mais completas com a melodia que lhes foi atribuída, porque uma e outra, melodia e poema, nunca mais poderão passar uma sem o outro e vice-versa.

E, porque em Leonard Cohen isso é flagrante, quero, desta feita, lançar um olhar comovido e cúmplice a quem escreveu, compôs e cantou «In My Secret Life» («Na Minha Secreta Vida» ou, talvez melhor, «No Segredo da Minha Vida»). E se despediu de nós com um disco recentíssimo que confirma o que atrás se disse dele e das suas canções.

Leonard Cohen partiu. Porém, o melhor dele vive nas nossas casas, em vinis, porventura, em CD forçosamente. Sem a sua obra – palavras, música, voz certeira na tradução interpretativa das melodias e dos poemas – a história da música, digamos, não-erudita das últimas décadas não teria sido escrita da mesma forma.

E basta de paleio. Vamos mas é ouvir música. Temos muito por onde escolher, mesmo sendo exigentes com as palavras das cantigas, as melodias que as enfeitam e a interpretação que lhes é dada. Leonard Cohen? Aleluia!




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