Eis o Trump

Henrique Custódio

A vi­tória de Do­nald Trump nas elei­ções pre­si­den­ciais dos EUA está a con­vul­si­onar os bem pen­santes do po­li­ti­ca­mente cor­recto.

A origem di­recta do des­norte está na cam­panha elei­toral re­a­li­zada e não apenas pelo des­con­chavo da pres­tação de Trump (o homem es­bar­rondou as con­ve­ni­ên­cias e ul­tra­passou as bar­reiras con­si­de­radas mais inex­pug­ná­veis), mas também pela con­dução da cam­panha de Hi­lary Clinton, que as­sentou no apoio ma­ciço da co­mu­ni­cação so­cial e do mundo do es­pec­tá­culo a partir da pre­missa triunfal de que o ad­ver­sário «era mau de­mais» para ser con­si­de­rado como tal.

In­de­pen­den­te­mente do rumo que as po­lí­ticas de Trump se­guirão – e nada de bom dali virá –, há uma evi­dência destas elei­ções que não está a ser abor­dada.

Trata-se de um mal-estar pro­fundo que mina a so­ci­e­dade norte-ame­ri­cana, desde que Ro­nald Re­agan pôs os «boys de Chi­cago» a mandar no país e, de­cor­ren­te­mente, no mundo que aos EUA está su­bor­di­nado.

Desde essa al­tura – quase toda a dé­cada de 80 do sé­culo XX – que o ne­o­li­be­ra­lismo en­trou em força nos EUA, im­pondo o mer­cado como o «grande re­gu­lador», abriu ca­minho à es­pe­cu­lação sem li­mites, à des­re­gu­la­men­tação dos mer­cados, da Bolsa e dos di­reitos so­ciais e la­bo­rais dados como ad­qui­ridos. Foi o tempo dos fundos de pen­sões vo­la­ti­zados na es­pe­cu­lação bol­sista e do de­sem­prego a alas­trar a muitos mi­lhões de tra­ba­lha­dores, que viram as suas fá­bricas a fe­char em busca de mão-de-obra mais ba­rata (e des­re­gu­la­men­tada) na China, na Índia – nos cha­mados «países emer­gentes».

Esta po­lí­tica foi acom­pa­nhada pela ar­ro­gância im­pe­rial dos EUA a pre­ten­derem-se «po­lí­cias do mundo», o que de­sen­ca­deou as de­ses­ta­bi­li­za­ções e as guerras que se co­nhecem: guerra e es­fran­ga­lha­mento da Ju­gos­lávia, guerra contra o Iraque e a de­ses­ta­bi­li­zação ge­ne­ra­li­zada no mundo is­lâ­mico, no­me­a­da­mente com guerras na Líbia, na Síria e no Afe­ga­nistão e etc. etc.

Nestes trinta e tal anos, os EUA con­ti­nu­aram a con­sumir mais de 50 por cento da pro­dução mun­dial, os ricos (como Trump) con­ti­nu­aram a au­mentar as suas for­tunas e os tra­ba­lha­dores so­freram, nestas três dé­cadas, con­tí­nuas de­gra­da­ções do nível de vida e de so­bre­vi­vência pa­tro­ci­nadas por su­ces­sivos pre­si­dentes que, desde Re­agan, têm pros­se­guido es­sen­ci­al­mente a mesma po­lí­tica de es­bulho e do­mínio im­pe­rial pela força das armas.

O que estes re­sul­tados elei­to­rais de­mons­tram é que o povo norte-ame­ri­cano, na sua mul­ti­cul­tu­ra­li­dade, está farto de perder qua­li­dade de vida e aberto a quem lhes pro­meta mu­dança.

Podia ser Bernie San­ders, o de­mo­crata que gal­va­nizou a ju­ven­tude com pro­postas con­cretas de de­sen­vol­vi­mento. Hi­lary Clinton e o Par­tido De­mo­crata ma­no­braram para o afastar – e agora le­varam todos com o Do­nald Trump.

 



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