Eis o Trump
A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA está a convulsionar os bem pensantes do politicamente correcto.
A origem directa do desnorte está na campanha eleitoral realizada e não apenas pelo desconchavo da prestação de Trump (o homem esbarrondou as conveniências e ultrapassou as barreiras consideradas mais inexpugnáveis), mas também pela condução da campanha de Hilary Clinton, que assentou no apoio maciço da comunicação social e do mundo do espectáculo a partir da premissa triunfal de que o adversário «era mau demais» para ser considerado como tal.
Independentemente do rumo que as políticas de Trump seguirão – e nada de bom dali virá –, há uma evidência destas eleições que não está a ser abordada.
Trata-se de um mal-estar profundo que mina a sociedade norte-americana, desde que Ronald Reagan pôs os «boys de Chicago» a mandar no país e, decorrentemente, no mundo que aos EUA está subordinado.
Desde essa altura – quase toda a década de 80 do século XX – que o neoliberalismo entrou em força nos EUA, impondo o mercado como o «grande regulador», abriu caminho à especulação sem limites, à desregulamentação dos mercados, da Bolsa e dos direitos sociais e laborais dados como adquiridos. Foi o tempo dos fundos de pensões volatizados na especulação bolsista e do desemprego a alastrar a muitos milhões de trabalhadores, que viram as suas fábricas a fechar em busca de mão-de-obra mais barata (e desregulamentada) na China, na Índia – nos chamados «países emergentes».
Esta política foi acompanhada pela arrogância imperial dos EUA a pretenderem-se «polícias do mundo», o que desencadeou as desestabilizações e as guerras que se conhecem: guerra e esfrangalhamento da Jugoslávia, guerra contra o Iraque e a desestabilização generalizada no mundo islâmico, nomeadamente com guerras na Líbia, na Síria e no Afeganistão e etc. etc.
Nestes trinta e tal anos, os EUA continuaram a consumir mais de 50 por cento da produção mundial, os ricos (como Trump) continuaram a aumentar as suas fortunas e os trabalhadores sofreram, nestas três décadas, contínuas degradações do nível de vida e de sobrevivência patrocinadas por sucessivos presidentes que, desde Reagan, têm prosseguido essencialmente a mesma política de esbulho e domínio imperial pela força das armas.
O que estes resultados eleitorais demonstram é que o povo norte-americano, na sua multiculturalidade, está farto de perder qualidade de vida e aberto a quem lhes prometa mudança.
Podia ser Bernie Sanders, o democrata que galvanizou a juventude com propostas concretas de desenvolvimento. Hilary Clinton e o Partido Democrata manobraram para o afastar – e agora levaram todos com o Donald Trump.