Conversa de véspera

Correia da Fonseca

No dia seguinte seria a eleição presidencial nos Estados Unidos, e por isso Fátima Campos Ferreira reuniu no auditório da Fundação Champalimaud um pequeno grupo de supostos entendidos na vida política norte-americana acrescentando-lhe ainda algumas entrevistas via satélite. De caminho, registe-se com alguma nostalgia, com perdão da palavra excessiva, o tempo em que o «Prós e Contras» acontecia no Teatro Armando Cortez, situado na Casa do Artista, opção que até servia para recordar a existência porventura difícil de uma notabilíssima obra de solidariedade. O programa foi decorrendo sem nenhum motivo de especial interesse, a plateia limitou-se a assistir sem que alguém dela fosse convidado a dar opinião ou suscitar qualquer dúvida, e tudo acabou em clima de alguma ansiedade implícita, pois bem se sabe que a eleição do presidente dos Estados Unidos é de primeiríssima importância para o resto do mundo, não apenas quanto à fundamental e sempre trágica questão da paz e da guerra mas também no que se refere à sobreexploração dos fracos pelos fortes ao longo de todo o planeta, da verdadeira democracia como alternativa às falsas máscaras democráticas, de várias outras coisas fundamentais. Que possa aqui ser recordado com sinal positivo ou negativo, não se ouviu ali nada que mereça especial destaque. Como bem se poderia esperar, houve consenso quanto ao desejo de uma vitória eleitoral de Hillary Clinton e da derrota de Donald Trump, não tanto por identificados méritos da candidata do Partido Democrático como pelos espectaculares deméritos de Trump, espécie de versão USA do Abominável Homem das Neves que há décadas calcorreou as colunas da imprensa e supostamente as encostas geladas do Himalaia.

Escolher o pior

De qualquer modo, de quanto ali se ouviu alguma coisa de relevante ou pelo menos de curioso haveria de emergir, e esse dado terá sido o de que, menos de ser indicado o candidato mas adequado para ocupar a Casa Branca em consequência dos seus méritos, foi apontado o candidato mais indesejável. Por outras palavras: da conversa aliás sempre cordata havida entre os convidados resultou não a escolha de quem seria o melhor presidente dos Estados Unidos mas sim a indicação de quem seria o pior. Ao longo desta busca foram referidos méritos e deméritos, e será interessante, porventura até útil, notar que acerca de Trump foi mencionado, além da sua já muito conhecida brutalidade de linguagem, um suposto pendor para se entender com Putin, ao passo que quanto a Hillary foi mencionado o seu apreço pelo uso da força militar aliás já tristemente confirmado pelo apoio que deu à invasão do Iraque. Infelizmente, não foi abordado com mínimo destaque a questão dos limitados poderes efectivos dos presidentes norte-americanos, isto é, de como o decisivo poder nos Estados Unidos não está de facto nas mãos presidenciais mas sim em zonas ocultas ou simplesmente discretas de que o chamado complexo industrial-militar é o mais referido, ainda que não abundantemente. Ainda assim, a pelos vistos conhecida apetência de Hillary pelas soluções bélicas, versão especialmente perigosa da supostamente tradicional atracção feminina pelas fardas, não parece recomendável para a actual situação política mundial e, aliás, já deu suficientes provas negativas no Iraque. Resta talvez esperar que as limitações postas pelo sistema à acção presidencial surjam como factor eventualmente positivo num contexto eventualmente perigoso. De qualquer modo, esse aspecto não foi sequer aflorado no auditório da Fundação Champalimaud, onde a conversa se findou sem visível proveito ou glória. De resto, como bem se sabia, o importante haveria de acontecer no dia seguinte e do outro lado do mar.




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