Dois aniversários
É sabido que a relevância de uma qualquer televisão, como aliás da generalidade dos chamados meios de comunicação social, se mede e é avaliável tanto pelo que comunica e divulga quanto pelo que silencia e omite. Em graus diversos, naturalmente, em função da matéria em causa. Pelo que é adequado estar atento a informações e silêncios mesmo quando não se trata de questões de primeira linha, digamos assim. Neste enquadramento, justificar-se-á talvez registar que no passado dia 28 de Setembro ocorreram dois aniversários que escaparam à memória de todos os canais da televisão portuguesa, aniversários de índole bem diferente entre si, mas que podemos de algum modo entender de uma certa complementaridade profunda. Um deles está inscrito na História recente do nosso País: foi para o dia 28 de Setembro de 1974 que o então general Spínola convocou uma manifestação da chamada «maioria silenciosa». Tratava-se de uma segunda tentativa para travar a dinâmica consequente ao 25 de Abril, inflectindo o processo político para uma forma de democracia tão «moderada» que, se obedecesse à vontade do senhor general, recusaria a legalização do PCP, a libertação de um elevado número de presos políticos e a independência das então colónias portuguesas. Como se sabe e quase todos bem lembramos, essa segunda tentativa spinolista foi travada pela acção conjunta da vigilância do MFA e da população, sendo o projecto do senhor general adiado para Março de 75 com as consequências também conhecidas.
Rendas, doença e jejum
Ora, sucedeu que bem longe, na cidade de Luanda e nesse mesmo dia histórico, nasceu uma menina decerto linda a que foi dado o nome de Maria de Assunção Oliveira Cristas, agora mais conhecida pela forma reduzida de Assunção Cristas e por ser a presidente do CDS-PP, o partido mais à direita do espectro político representado na AR. É de crer que Assunção Cristas não partilhe os projectos que foram do general Spínola, até porque os anos entretanto decorridos os desactualizaram, mas não será abusivo supor que, tivesse a menina nascido umas décadas mais cedo, o seu entendimento das coisas políticas em geral não se afastaria muito do pensamento do então senhor general, mais tarde senhor marechal. Agora as coisas são diferentes, é claro, e, tanto quanto se sabe, o projecto imediato de Assunção Cristas é conquistar Lisboa com o apoio de uma maioria não silenciosa mas actuante graças ao direito de voto. Contará ou não com o apoio do partido que lhe é mais próximo, o PSD do dr. Passos (ou de um outro qualquer, nestas coisas nunca há certezas) e com a obra que ela própria terá realizado enquanto ministra. E quanto a este ponto que não é secundário, uma questão é quase desconcertante: é que a mais impressiva e duradoura memória que milhares de eleitores de Lisboa terão da drª Cristas é que, graças a ela e à Nova Lei do Arrendamento Urbano por ela engendrada, viram a renda da casa que habitam crescer até valores que muitas vezes terão implicado uma dolorosa opção: cortarem nas despesas da farmácia ou no custo da alimentação, sendo que nenhuma destas escolhas é estimulante do voto em quem as impôs. É certo que os senhores senhorios lisbonenses irão votar em Cristas, até porque decerto são gratos a quem os favoreceu, mas é de crer que serão significativamente em número menor do que o dos inquilinos compelidos a optar entre a doença e o jejum, se não condenados a ambos. Se é com estes eleitores que a drª Cristas espera conquistar Lisboa, justifica-se que nos interroguemos sobre o optimismo das suas análises sócio-políticas mas, para lá disso, emerge uma evidência: a sua vinda a este mundo difícil em 28 de Setembro de 74, no mesmo exacto dia em que o general Spínola convocava a sua afinal nunca surgida «maioria silenciosa», foi uma coincidência que parecia implicar um vínculo premonitório. Como se na sua óbvia inocência, mas porventura cumprindo um secreto destino, a bebé respondesse à convocatória emanada de Lisboa.