Na floresta de enganos
Como é sabido, enganos há muitos por esse mundo fora, ainda que para estas duas colunas interessem sobretudo os enganos que surgem na televisão. Bem se poderá dizer mesmo que a televisão que tão intensamente nos alimenta os saberes que temos ou que julgamos ter é uma verdadeira floresta de enganos, assim aproveitando a oportunidade para tentarmos fazer vista pilhando um título ao sempre actual Mestre Gil. De tais enganos há-os de produção local, digamos assim, isto é, os que são da autoria da própria televisão, e os que por ela são importados para revenda a todos nós, seus clientes. Exemplo recente e aliás muito ligeiro do primeiro caso foi a forma como um dos canais portugueses, a TVI24, nos deu a notícia dos resultados das eleições na Rússia. Foi em mero rodapé no ecrã, forma que seria mais adequada se se tratasse de eleições num país de segunda ou terceira grandeza, mas o mais significativo terá sido a fórmula adoptada: «Putin proclama vitória». É claro que a notícia era a da própria vitória, não a da «proclamação» pelo líder russo, mas a expressão usada contrabandeava não apenas uma redução da importância do facto mas também a tendencial insinuação de que o resultado eleitoral poderia ainda estar em dúvida: Putin proclamava, seria verdade ou não. «Assim se fazem as cousas», mas bem se sabe que a televisão tem enorme talento, grande vocação e longa experiência para esta peculiar arte de semear árvores de grande porte ou apenas pequenos arbustos na tal floresta de enganos cuja plantação (nas nossas cabecinhas, é claro) por vezes parece, com razão ou sem ela, ser o seu principal cuidado.
O lapso e o preço
Há, porém, enganos de outra índole e diversa dimensão que a televisão se limita a transmitir-nos sem que lhes acrescente comentários próprios e apenas com a generosa intenção de nos fazer saber o que vai pelo mundo. Porque, não o esqueçamos nunca, o maior cuidado da televisão é tratar das nossas sabedorias. Um desses outros enganos, muito recente, foi o que levou a aviação norte-americana operando na Síria a bombardear posições do exército sírio quando supunha, coitada, estar a bombardear o Daesh, também conhecido por Isis. De mais este lamentável lapso «made in USA» terá resultado o alto preço da morte de uma centena de militares do exército sírio, fiel ao governo sediado em Damasco e internacionalmente reconhecido, cujo derrube é assumidamente pretendido por Washington e pela matilha de grupos paraterroristas que os Estados Unidos e aliados mobilizaram, armam e financiam. É certo que a aviação norte-americana tem o desagradável hábito de se enganar com frequência quer na Síria quer noutros lugares, coisa aliás de muito espantar por ocorrer com quem dispõe das mais avançadas tecnologias, mas este concreto caso tende a suscitar a dúvida de saber se houve mesmo engano no bombardeamento errado ou se é a própria notícia que é voluntariamente enganosa. Sabe-se que através de muitas dificuldades foi conseguido um acordo entre USA e Rússia, potências dominantes e de facto decisivas, de modo a abrir caminho à pacificação da Síria após cinco anos de horror. Sabe-se que a guerra na Síria, fundamental na desestabilização da região, é um dos motivos da tragédia dos refugiados que transforma o Mediterrâneo num inesperado cemitério e está a colocar a Europa em grandes embaraços. Sabe-se que o acordo supostamente alcançado não inclui a destituição do presidente sírio, como os Estados Unidos desejavam. Inevitavelmente, haverá quem fique a perguntar se o bombardeamento norte-americano sobre o exército sírio, seguramente não favorável à implementação do cessar-fogo e ao seu respeito, podendo mesmo implicar um outro preço que seria o do prosseguimento dos combates, aconteceu mesmo por engano. Ou se, uma vez mais, estão a enganar-nos. Afinal alargando só mais um poucochinho a floresta onde nos querem de facto encerrados.