O entroikado
Passos Coelho já foi várias coisas na vida – aspirante a cantor lírico, frequentador de diversos cursos, finalmente titular de uma licenciatura granjeada aos 38 anos na universidade privada Lusíada (apesar de tudo, mais expedito do que o seu amigo «doutor Relvas»), um ascenso político minucioso como presidente da jota PSD, finalmente presidente do partido, primeiro-ministro e de novo presidente, após ser inequivocamente afastado pelo eleitorado e um Governo PS tornado possível na sequência das posições conjuntas assumidas com o PCP, PEV e BE.
Hoje, anda por aí a ressabiar desconfortos, ele, que tanto exortou a juventude portuguesa a «sair da zona de conforto» – coisa que, obviamente, o próprio não está disposto a fazer.
Reapareceu no Pontal, que há anos é no «calçadão» de Quarteira, tostado frente aos microfones, falando de improviso com papel à espreita, numa oratória pausada como de seu uso, fluente como a pausa induz e num discurso redondo que não aqueceu os dois mil comensais vindos em autocarros, pagos pelo partido, do Norte ao Sul e até da Madeira.
Aliás, no final ninguém percebeu que o homem tinha terminado a arenga e foi preciso Passos gritar várias vezes «Viva Portugal!» para a amodorrada plateia bater umas palmas para as televisões, entre digestivos. Disto fizeram testemunho várias reportagens, vá lá.
E que disse Coelho? O costume. Citou décimas de um relatório do INE escolhendo umas e escondendo outras, descobriu subidas «para o dobro» e descidas «para metade» na economia portuguesa compulsando umas décimas e exibindo-as como ouro de 24 quilates, continuando sem reparar que descidas ou subidas dumas décimas, em economia, são vacilações conjunturais e irrelevantes na computação da produtividade e desenvolvimento, que só corresponde a um aumento real a partir dos dois por cento (sendo que os dois por cento de feérico «aumento» corresponde a estagnação).
Provavelmente lá na Lusíada, onde o licenciaram em Economia, ninguém se lembrou de lhe ensinar esta regra básica da economia capitalista (que, de resto, anda bastante esquecida entre os políticos que para aí arrotam postas de pescada sobre economia e desenvolvimento, incluindo a professora de Passos Coelho na Lusíada, Maria Luís Albuquerque).
Mas Passos Coelho também levou novidades ao calçadão, proferindo, às tantas: «[o Governo] também está esgotado socialmente porque esta troika governativa só sabe fazer o que é fácil – e depois do que é fácil acabaram-se as boas ideias».
Pelos vistos, agora Passos Coelho também acha «fácil» reverter os cortes em salários e pensões que o seu governo aplicadamente impôs, ainda acha que «depois do que é fácil» o actual Governo ficará «sem boas ideias» e descobriu, ó deuses! que até temos uma «troika governativa»!!!
Perdido no seu labirinto, o homem está definitivamente entroikado.