Turquia

Pedro Guerreiro

Os EUA têm historial de apoio a golpes de Estado

Um emaranhado de considerações e especulações continua a ofuscar a nítida compreensão das contradições que estão na origem da tentativa de golpe de Estado na Turquia de 15 de Julho passado. Os elementos conhecidos apontam para que a tentativa de golpe tenha sido desencadeada por sectores até há pouco tempo aliados e ocupando até ao momento posições muito próximas de Erdogan e do AKP, como os apoiantes de Gülen, entre outros sectores.

Gülen, imã islâmico, com profundas ligações aos EUA – que remontam à instrumentalização do islamismo contra a União Soviética –, dirige uma vasta organização, cujos membros têm vindo a ocupar importantes posições no aparelho de Estado (incluindo nas forças armadas, na polícia e na justiça), assim como no ensino e nos meios de comunicação social, assegurando uma crescente influência na sociedade turca durante os governos do AKP. Aliás, após a tentativa de golpe, Erdogan dirigiu, fundamentalmente e até ao momento, as medidas repressivas contra a organização dirigida por Gülen, que aponta como responsável do golpe, levando a cabo uma imensa purga contra os seus muitos milhares de membros.

Neste quadro, um dos elementos que tem sido mais realçado é sobre qual terá sido o efectivo grau de conhecimento e, mesmo, eventual envolvimento dos EUA em todo este processo e seu significado (os Estados Unidos têm um longo historial de apoio a golpes de Estado na Turquia – importante país membro da NATO que ocupa uma posição de grande interesse geoestratégico).

Têm vindo a ser apontados diversos factores que, intimamente ligados às divisões no seio das forças que têm vindo a exercer o poder na Turquia, estarão na origem da actual agudização da situação, entre os quais o processo de islamização do país, a crescente centralização do poder político, o sistemático cerceamento de liberdades e direitos democráticos, a falência da agressão à Síria – perante a firme resistência deste país e do seu povo – e a imposição de um verdadeiro estado de guerra em regiões de predominância de população curda na Turquia, na sequência das eleições realizadas em Junho de 2015.

A evolução da situação em torno da Turquia continuará a exigir toda a atenção, sendo múltiplos os factores em jogo e suas repercussões, incluindo para o Médio Oriente. No entanto, não pode passar em branco o imenso cinismo daqueles que – como a União Europeia, que negoceia a adesão da Turquia – fingem ter descoberto no rescaldo do golpe falhado o carácter repressivo e autoritário da política de Erdogan e do AKP, procurando assim não só influenciar a evolução imediata da situação na Turquia, como encobrir o seu amplo conluio com as autoridades turcas e a sua política, de que é exemplo a ocupação ilegal de território de Chipre; a repressão da população curda; a restrição de liberdades, direitos e garantias fundamentais; a agressão e saque da Síria e do Iraque, promovendo e protegendo grupos terroristas e apoiando a sua sangrenta acção; ou a instrumentalização da dramática situação de milhões de refugiados e a negação dos seus mais elementares direitos.

Assinale-se que muitos dos que agora apontam o dedo às autoridades turcas por terem decretado o Estado de emergência e suspendido temporariamente a aplicação da Convenção para a Protecção dos Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais, são os mesmos que justificaram as medidas de restrição de liberdades, direitos e garantias impostas pelas autoridades francesas após os atentados em Paris, em Novembro passado, que incluíram, precisamente, estas duas medidas. Convenientes e elucidativos exercícios de hipócrita «amnésia»…

Nesta complexa situação, impõe-se a expressão da solidariedade com os comunistas e outros democratas turcos e a sua luta em defesa dos direitos, interesses e aspirações do povo turco.



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