A «ordem» na Europa
Independentemente das cortinas de fumo que continuam a rodear os recentes ataques em França e na Alemanha – e que necessitam de esclarecimento –, a sua repetição e características são uma dolorosa demonstração das consequências do papel de várias potências europeias, dos seus aparelhos militares e dos seus serviços secretos nas criminosas operações de desestabilização, ingerência e guerra no Norte de África, no Médio Oriente e na Ásia Central.
Operações que são levadas a cabo em coordenação e «cooperação» com países-chave da estratégia do imperialismo e dos seus espaços de articulação, como a UE ou a NATO. Um desses países é a Turquia de Erdogan, que está a receber da União Europeia milhares de milhões de euros, para fazer o trabalho sujo de conter, reprimir, fechar em campos de concentração e matar milhões de refugiados que fogem da guerra. A mesma Turquia que, em articulação com o Conselho de Cooperação do Golfo, a NATO e a União Europeia, esteve e está envolvida no financiamento, treino e apoio estratégico às organizações terroristas que são apresentadas como autoras dos atentados terroristas na Europa e que serviram e servem o objectivo de submeter a Síria e o seu povo.
É por isso que as reacções do establishment europeu aos acontecimentos na Turquia tresandam a hipocrisia e a mentira. É que o que ali aconteceu está intimamente relacionado com o papel dado à Turquia – e a Erdogan – no extremamente perigoso jogo imperialista, que cruza o objectivo de domínio e redivisão do Médio Oriente com o crescente e cada vez mais insano rumo de enfrentamento directo com países como a Federação Russa. Um papel que alimentou a deriva reaccionária e ditatorial das elites turcas – sejam elas do AKP ou da «velha» hierarquia militar.
E, enquanto a União Europeia e os «líderes» europeus navegam no meio da lama que eles próprios ajudaram a criar, o Deutsche Bank range por todos os lados, sinalizando um novo pico de crise financeira. Enquanto isso, as instituições da UE persistem em manobras de chantagem aberta contra países como Portugal que, além de escandalosas, são cada vez mais ridículas. A sucessão destes acontecimentos parece caótica, mas não é. É a «ordem» de uma Europa dominada pela lógica do imperialismo e submetida à dinâmica de um capitalismo europeu em profunda crise e de uma União Europeia condenada ao fracasso.