Terra para produzir
O Sindicato Andaluz dos Trabalhadores (SAT) voltou a ocupar, dia 28, a herdade de Somonte, desafiando a ordem de despejo do tribunal executada dias antes pelas autoridades.
Trabalhadores agrícolas enfrentam ordem de despejo
A herdade de Somonte, situada no município de Palma del Río, na província de Córdova, é propriedade do governo autónomo da Andaluzia e estava inculta e abandonada até ser ocupada pelos trabalhadores rurais em 2012.
Nos últimos quatro anos, o SAT investiu cerca de 70 mil euros na exploração de 400 hectares e muitas horas de trabalho voluntário.
Em solo antes improdutivo surgiram sementeiras de trigo, aveia, favas, girassol e colza. Criou-se um galinheiro e uma horta com seis hectares, adquiriu-se maquinaria, melhorou-se as estruturas de rega e reparou-se os caminhos e as edificações.
Neste período, a Junta da Andaluzia (governo regional) recebeu 800 mil euros de fundos da PAC pela herdade de Somonte. Tal verba daria para pagar «muitos dias de trabalho em Somonte, criando riqueza numa comarca assolada pelo desemprego, mas a Junta preferiu guardar o dinheiro», refere o Sindicato na sua página na Internet.
Mas pior do que a falta de apoios são as consecutivas investidas das autoridades para desalojar os camponeses.
Em menos de um mês foram despejados duas vezes pelas autoridades. A primeira operação da Guarda realizou-se a 2 de Junho. Os trabalhadores saíram sem oferecer resistência. Mas passados três dias voltaram.
A 21 de Junho, a herdade foi novamente cercada pela Guarda Civil. E novamente os ocupantes saíram ordeiramente. Uma semana depois, dia 28, um grupo de membros do SAT, em que se contava o deputado eleito pela coligação Unidos Podemos e dirigente do SAT, Diego Cañamero, anunciou a reocupação da propriedade: «Somonte foi devolvida ao povo».
Repressão aumenta
Em quatro anos de ocupação, várias foram as tentativas de expulsar os trabalhadores. Sempre sem sucesso. Todavia, recentes alterações legislativas acentuaram o quadro repressivo.
Antes da aprovação da Lei Orgânica da Protecção da Segurança dos Cidadãos (mais conhecida como «Lei da Mordaça»), cada ocupação dava origem a um novo processo judicial, que exigia a identificação de todos os participantes, e poderiam passar-se anos até ao despejo.
Agora, não só as ordens de despejo podem ser renovadas sem novos processos, como as penas foram sensivelmente agravadas.
Mas apesar dos riscos acrescidos, para os membros do SAT não há alternativa: «A ocupação de Somonte não é simbólica, é uma ocupação real que demonstra que as coisas podem ser feitas de outra maneira».
«Podem prender-nos a qualquer momento», mas «continuamos convencidos de que devemos manter a ocupação, é uma necessidade ética e vital», declarou Oscar Reina, coordenador-geral do SAT, à Europa Press, lembrando que agora é o tempo das colheitas.
Terras vendidas ao desbarato
Em 1985, a Junta da Andaluzia encetou um tímido programa de expropriação de herdades para uso público, política que foi gradualmente abandonada ao fim de poucos anos.
Em 2011, o executivo regional do PSOE mudou radicalmente de orientação e começou a vender em hasta pública o banco de terras com mais de 20 mil hectares.
O SAT estima que restem apenas cinco mil hectares de terra nas mãos do governo regional. O resto foi comprado a baixo preço por latifundiários e especuladores.
Também a herdade de Somonte foi posta à venda em 2011 por 1,5 milhões de euros, mas não encontrou comprador, apesar de só os subsídios da PAC cobrirem aquele valor em poucos anos.
A ocupação não só impediu a venda da herdade ao desbarato como passou a representar uma bandeira da luta dos trabalhadores agrícolas pelo direito a cultivar a terra.