Saia um referendo
Não será fácil de concluir no rescaldo da decisão do Reino Unido de sair da União Europeia qual o sentimento predominante – se perplexidade ou desorientação – , no vasto leque de almas que, de uma ou outra maneira, não suportam perturbações no processo de integração capitalista. Escusado será invocar o estado de negação com que se debaterão figuras como as de José Rodrigues dos Santos perante a ingrata realidade lhe negar o sonho da permanência. Má sorte a do Zé! Depois de a RTP esforçadamente ter colocado um gráfico com o «permanecer» em disputa com o «ficar», a vida prega-lhe a partida de a hipótese «sair» vencer! Azares que desvendam ainda o rigor da sua escrita a metro. Escusado será registar o caos institucional que figuras de proa da União Europeia revelaram, perdidos entre primeiros silêncios, titubeantes comentários ou ridículas interpretações que lá vão reconduzindo a uma versão mais organizada recheada de indisfarçável azedume, novos saltos federalistas e renovadas imposições. Escusado será anotar o cinismo de quem procura, face ao referendo, catalogar mais de nove milhões de britânicos de intolerantes xenófobos ignorando que, entre as muitas manobras de pressão e manipulação para evitar a vitória da «saída», consta um acordo entre o Reino Unido e a União Europeia onde «preto no branco» se consagrava um elenco de disposições de discriminação racial e anti-imigrantes. Escusado será evidenciar que na leitura do resultado se esconda tudo o que os centros do capital transnacional e as instituições a seu mando (sejam o FMI, o BCE ou a Comissão Europeia) jogaram a favor da permanência. Escusado, escusado mesmo, seria o papel que vários dirigentes do BE se prestarem para fazer coro com argumentos comuns aos dos federalistas de topo seja para apresentar a saída ditada pelo debate «sobre os extremos políticos e não sobre a construção europeia» ou a inquietação por «verem o projecto europeu posto em causa». Desorientação que terá levado Catarina Martins a afirmar à entrada da Convenção que «não é o momento dos países saltarem com cartadas de referendos», para 24 horas depois anunciar, não se sabe bem, se um ou se dois referendos sobre o que não sabem bem o quê.