Greve camponesa na Colômbia

Luta imparável

A paralisação de camponeses, assalariados rurais e indígenas colombianos dura há mais de uma semana e já obrigou o governo a comprometer-se com a segurança dos manifestantes.

«Enquanto vigorar o actual modelo, a exclusão social vai continuar»

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A integridade física e a tranquilidade dos participantes nas acções reivindicativas que, na sua esmagadora maioria, se tem desenrolado de forma pacífica (embora se registem episódios de resistência tenaz às investidas das forças repressivas), foi um compromisso assumido por Bogotá ao sexto dia de jornada, quando a repressão desencadeada pelo Esquadrão Móvel Anti-Distúrbios, pela polícia e pelo exército, se saldava em três manifestantes mortos, cerca de 180 feridos e mais de 150 detenções arbitrárias.

Em Cali, representantes do Fórum Agrário, Indígena, Étnico e Popular e do governo colombiano (ministérios da Defesa e da Agricultura) concordaram que, sem prejuízo da continuidade dos protestos, as autoridades iriam assegurar o respeito pelos direitos humanos, e que a comissão integrada pelo Ministério do Interior, Ministério Público e Nações Unidas desencadearia investigações à violência.

As partes decidiram igualmente prosseguir o diálogo com o objectivo de resolver o conflito, mas a reunião prevista para anteontem encontrava-se em perigo justamente devido ao incumprimento das garantias de segurança por parte do executivo liderado por Juan Manuel Santos.

Em comunicado divulgado domingo, 5, o Fórum denunciou «perseguições e abusos de autoridade cometidos pelas forças repressivas» contra as marchas e concentrações realizadas nesse mesmo dia em vários pontos do país.

Contradição

Na quinta-feira, 3, uma porta-voz do Fórum notou a discrepância entre o discurso e a prática do presidente, uma vez que, explicou, por um lado Juan Manuel Santos diz pretender a paz, e por outro declara guerra à mobilização dos camponeses, assalariados rurais e membros das comunidades originárias.

Para Marylen Serna, Juan Manuel Santos não pode querer o fim da luta armada «sem negociar com o povo as mudanças de que o país necessita». «Enquanto vigorar o actual modelo de desenvolvimento económico e político, a exclusão social vai continuar», bem como se manterá intocável «o poder de uma oligarquia que rejeita discutir a propriedade da terra e o usufruto dos recursos naturais e dos seus proveitos pelo povo», acrescentou.

Camponeses, assalariados rurais e indígenas reclamam do governo o cumprimento do acordado há mais de dois anos quanto a uma «política agrária, ambiental, alimentar, de crédito e desenvolvimento inclusiva, da qual beneficiem as comunidades rurais e urbanas», e que não esteja na base ou seja pretexto para «gerar mais violência, iniquidade, injustiça e pobreza extrema».

A reforma agrária integral, abarcando a posse e uso da terra, a exploração soberana dos recursos naturais, o investimento público em progresso social e económico no campo, entre outras matérias, foi o primeiro ponto acordado pelo governo e as FARC-EP nas conversações de paz que decorrem desde 2012 em Havana, Cuba.

A crescer

Desde segunda-feira, 30 de Maio, dezenas de milhares de pessoas têm saído à rua em todas as regiões da Colômbia numa mobilização crescente. Na quarta-feira, 1, cerca de 300 mil docentes marcharam em todo o território em defesa de melhorias salariais e protecção na saúde, mais financiamento para o ensino público e contra a privatização.

Já esta segunda-feira, 6, os camionistas iniciaram uma paralisação indefinida pelo cumprimento dos compromissos governamentais quanto ao preço dos combustíveis, por melhores condições de trabalho e contra a precariedade laboral.

 

Uribismo

Paralelamente à greve camponesa, o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe iniciou a recolha de assinaturas contra o processo de paz com as FARC-EP. Figura sinistra associada a subjugação do país aos interesses do imperialismo norte-americano, Uribe tem feito campanha pela resistência civil a qualquer acordo com a guerrilha.

Segundo a Agência da ONU para os Refugiados, entre 1997 e 2003, mais de cinco milhões de colombianos foram forçados a abandonar as respectivas terras. O bandos de mercenários desempenharam um papel sanguinário nas expulsões, e muitas têm sido as vozes – caso da ex-senadora Piedad Córdoba e da organização Colombianos pela Paz – que alertam para o reagrupamento dos paramilitares nos últimos meses, patente no aumento do número de assassinatos de líderes e activistas sindicais, de dirigentes e defensores dos direitos humanos.

Durante os oito anos de presidência de Álvaro Uribe, 61 deputados seus apoiantes foram condenados por manterem indisfarçáveis vínculos com aqueles contingentes armados. Referentes ao mesmo período, estão identificados mais de quatro mil «falsos positivos», isto é, jovens, sobretudo, que foram executados e apresentados pelo aparelho repressivo estatal como sendo guerrilheiros das FARC-EP.

 



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