A voz invencida

Correia da Fonseca

O pro­grama es­tava anun­ciado para trans­missão na se­gunda-feira, em­bora já no final do dia, a horas em que não desse muito nas vistas e não in­co­mo­dasse os que pre­ferem não saber. Acon­teceu afinal já na terça-feira, em­bora na pri­meira hora do dia, tal como aliás ocor­rera na se­mana an­te­rior. Era o ter­ceiro epi­sódio da série que sob o tí­tulo um pouco pa­tusco de «Es­tó­rias do Tempo da Outra Se­nhora» vem contar-nos si­tu­a­ções e frag­mentos da vida sob o fas­cismo; da luta que so­bre­tudo os co­mu­nistas, mas bem se sabe que não apenas eles, du­rante he­róicas dé­cadas man­ti­veram; que vem contar-nos isso mais o que adi­ante se verá, mas pre­vi­si­vel­mente sempre de­pois da meia-noite. Desta vez foi-nos con­tada a epo­peia si­len­ciosa que foi, ao longo de dé­cadas de muita co­ragem e também de muito so­fri­mento, a fei­tura de uma im­prensa livre em quo­ti­di­anas con­di­ções de risco de vida. E, como o pro­grama re­velou aos de­certo re­la­ti­va­mente poucos que para vê-lo se man­ti­veram atentos até tão tarde, não foi apenas a pu­bli­cação do Avante!, esse caso único de inin­ter­rupta pre­sença no quadro mun­dial da im­prensa clan­des­tina: foi também a pu­bli­cação de ou­tros jor­nais es­pe­ci­al­mente de­di­cados a certos sec­tores. Para isso foi pago um preço ine­vi­ta­vel­mente alto cujo re­lato não foi es­go­tado no pro­grama, em­bora nele tenha sido re­fe­rida até a parte que foi paga pelos fi­lhos desses pe­cu­li­ares com­ba­tentes não apenas pela li­ber­tação de um povo mas também pela li­ber­dade de ex­pressão.

A co­ragem em tom li­geiro

Foi cu­rioso e de­certo sig­ni­fi­ca­tivo o tom des­dra­ma­ti­zado com que al­guns dos in­ter­ve­ni­entes nessa es­pe­cí­fica forma de re­sis­tência e também de co­ragem vi­eram depor no pro­grama: dir-se-ia que para eles o risco era tão na­tural como a res­pi­ração. Al­guns por­me­nores li­geiros, por vezes até um pouco di­ver­tidos, vi­eram in­crustar-se nas nar­ra­tivas, e as ima­gens com que a câ­mara mos­trou a re­cons­ti­tuição dos pro­cessos de com­po­sição e im­pressão dos jor­nais ti­veram um sabor do­cu­mental im­por­tante. Es­pe­ci­al­mente es­cla­re­cedor e por­ven­tura emo­ci­o­nante foi o tes­te­munho de quem ao tempo era cri­ança e con­tudo já tinha uma ca­pa­ci­dade, di­gamos que mi­li­tante, para co­la­borar ac­ti­va­mente na­quela con­creta forma de re­sis­tência. É ra­zoável supor, até pelo que se ouviu, que essa ma­tu­ri­dade tão cedo ad­qui­rida era a face menos agreste de um preço a pagar por uma in­fância di­fe­rente e bem mais dura que o comum, e também o com­ple­mento de um le­gí­timo or­gulho por co­la­borar na luta dos pais. En­tre­tanto, por­ven­tura para que o dra­ma­tismo de si­tu­a­ções não re­sul­tasse muito óbvio no pro­grama, nele não foram re­fe­ridas as con­sequên­cias mais duras que re­sul­taram para al­guns dos que par­ti­ci­param na­quela es­pe­cí­fica trin­cheira da luta an­ti­fas­cista: pe­rante este epi­sódio, tal como pe­rante os já trans­mi­tidos, dir-se-ia que a série tem o cui­dado de manter um certo grau de li­gei­reza, aliás de­tec­tável desde logo no seu pró­prio tí­tulo, como se não qui­sesse dar nas vistas pelo que de mais im­por­tante trans­porta. Essa even­tu­a­li­dade, se tanto chega a ser, adi­ci­o­nada ao ho­rário um pouco pe­cu­liar e afinal in­certo em que é trans­mi­tida a série, pode levar al­guns te­les­pec­ta­dores a pensar. Talvez, porém, o me­lhor seja não o fazer. Para não de­sem­bocar em hi­pó­teses amargas, de­certo ex­ces­sivas e in­jus­ti­fi­cadas.




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