Plano C

Anabela Fino

Depois do trambolhão nos idos de Outubro, o PSD de Passos Coelho entrou em estado de negação e nem o frenesim de Cristas no CDS parece capaz de o trazer à realidade. Refém do que se poderia classificar de síndrome eleitoral, PSD/Passos vagueiam nos últimos meses numa espécie de sonho de regresso ao passado, ancorados no pseudo «direito a governar» ainda que sem o indispensável suporte de uma maioria parlamentar. Passos vestiu a pele de primeiro-ministro no exílio e anda pelo País em inaugurações serôdias a receber o beija-mão de correligionários agradecidos e na expectativa de benesses futuras, putativos ministros abraçam pastas de um governo sombra sonhando com amanhãs de poder, homens de mão e pé ligeiro desdobram-se em contactos aquém e além fronteiras a arregimentar apoios para armadilhar o caminho que – esperam – há de levar à derrocada do Governo legítimo resultante da nova correlação de forças na Assembleia da República.

Enquanto isso, os deputados eleitos do PSD vão arrastando os seus posteriores nos assentos da AR, incomodados com os debates que é suposto ser o que aí justifica a sua presença, apenas abrindo a boca para anunciar a «catástrofe» por que anseiam e levantando o braço para rejeitarem, ou na melhor das hipóteses se absterem, tudo o que ao País diz respeito. Foi justamente o que sucedeu no debate sobre o Orçamento do Estado que ontem terminou no Parlamento, onde o que de mais substancial se ouviu por parte do PSD foi que a «escolha de um país virado para dentro é um caminho errado, foi sempre um caminho errado» e a insistência quase paranóica no pretenso «plano B» de «medidas adicionais» de austeridade que dizem (e desejam) ser inevitável.

Quanto ao CDS, que arrasta consigo a co-paternidade da desastrosa política seguida nos últimos quatro anos, incluindo o «maior aumento de impostos» da história do País e a implantação do quociente familiar que reduzia as crianças a um terço de pessoa, optou por participar no debate, mas veio à liça clamar, por exemplo, que «não aceita que as crianças valham como descontos, como uma pós-graduação ou como obras que se façam em casa».

Tudo junto e baralhado, e sem escamotear o facto de que o Orçamento do Estado para 2016 fica muito aquém do que seria desejável e continua a sujeitar-se aos ilegítimos ditames da União Europeia, temos que a direita portuguesa está contra o aumento do abono de família, a gratuitidade dos manuais escolares, a reposição dos salários roubados, o fim da sobretaxa, o complemento solidário para idosos, o reforço do subsídio social de desemprego, a redução do IMI – só para citar algumas das medidas positivas contidas no OE.

Compreende-se. Depois de quatro anos de discurso sobre as inevitabilidades, a necessidade de empobrecer e o caminho único que levou o País ao abismo, a comprovação de que é possível outra política deixa PSD e CDS muito mal na fotografia. Daí o desespero com que procuram alternativas, um plano C, que lhes garantam o regresso ao poder. Ou será mera coincidência o súbito afã para rever a Constituição?

 



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