Uma questão de cores

Correia da Fonseca

Foi numa destas manhãs, no «Discurso Directo» da TVI24, programa que acolhe participações telefónicas de telespectadores e que é apresentado com afabilidade, inteligência, também com firmeza quando necessário, pela jornalista Paula Magalhães, com tal capacidade de estabelecer empatia com o telepúblico que muitos dos participantes habituais parece já terem estabelecido com a apresentadora vínculos de estima pessoal. Foi, pois, no «Discurso Directo» que a dada altura alguém, talvez a própria Paula Magalhães mas não apenas ela, disse que «a cultura não tem cor», entendendo-se naturalmente que a frase não aludia a questões de ordem pictórica ou afins mas sim a «cores políticas». Acontece que a afirmação não corresponde à verdade e é mais grave do que pode parecer: a cultura tem cores políticas, sim, ainda que talvez com intensidades variáveis, e essas colorações até têm sido confirmadas ao longo dos tempos pela própria História. Quando a Alemanha hitleriana se aplicava a fazer queimas de livros na praça pública (de alguns, de muitos livros, mas não do «Mein Kampf» agora curiosamente reeditado e até lançado em edição portuguesa, indício de que terá «mercado») estava a fazer prova de que a cultura tem cores. Por cá não ocorreram dessas fogueiras mas, como se sabe, muitos livros, alguns quadros, até algumas obras musicais e não apenas as belas canções do José Afonso, foram proibidas pela vigilância fascista, e obviamente porque tinham uma certa cor ou assim o pareciam à observação censória. Os olhos fiscalizadores detectavam ou julgavam detectar nesses produtos do que se pode designar por criatividade humana, mas também por produtos do sonho e muitas vezes das lutas, uma coloração que lhes parecia avermelhada, e não se dirá que se enganavam sempre. Em compensação, digamos assim, um poeta português escreveu um dia um poema directamente inspirado na cor negra (se o negro é cor) das fardas da SS, e o poema, breve mas solidamente construído, até teve lugar numa antologia da poesia portuguesa contemporânea.

Como impressão digital

Se porventura quiséssemos explicar o motivo das diferentes colorações que os diversos produtos culturais podem ter, bastaria talvez lembrar que todos eles correspondem, conscientemente ou não, a entendimentos do mundo, da vida, dos percursos humanos individuais ou colectivos. Mesmo a cultura que se diga incolor ou que incolor se julgue assume por isso mesmo um certa coloração em directo contraste com a que se reivindica colorida porque reconhece com orgulho a sua sintonia com certas aspirações humanas e não com outras. Valerá a pena lembrar aqui dois versos de Sidónio Muralha: «porque enquanto as aves se calam, estranguladas pelo medo, / o medo, como uma faca, rasga as canções dos poetas.» É um fragmento que parece exemplo evidente de obra de arte com assumida coloração que não agradaria, que de facto não agradou, aos censores no tempo político que agora alguns gentilmente designam por «anterior regime». É certo que nisto de cultura e de cores nem tudo se resume, ainda que só tendencialmente, à bipolarização entre negro e vermelho: a paleta das artes e letras tem outras e mais cores, felizmente para o desejável reconhecimento da diversidade da capacidade criadora das gentes; mas sempre lá estará, ainda que muito discreta, uma tendência para um certo tom, pois não é próprio dos humanos, bem pelo contrário, a completa incontaminação pelas aragens que sopram no seu tempo, pelo meio onde vivem, pela classe a que pertencem. Em resumo: como obra dos homens, do seu trabalho, da sua experiência, dos seus projectos, a cultura tem cores, sim. E não é útil, ainda que eventualmente bem-intencionada e de plena boa-fé, a negação dessa coloração que é como a própria impressão digital da condição humana que a gerou.




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