Uma família alemã
É uma mini-série alemã que regressa à programação da «2» algum tempo depois de uma estreia prejudicada por lapsos; não percamos tempo com esse aparente encalhe e registemos o que importa: «A Família Krupp» é um excelente produto de televisão, inteiramente condicente com a melhor tradição da produção europeia para a TV. Olhamos o seu primeiro episódio, até talvez apenas o primeiro punhado de sequências, e logo nos apercebemos (mesmo que não atendamos ao denunciador som dos diálogos obviamente na língua alemã) de que não estamos perante um produto «made in USA»: há ali uma «marca europeia» que frequentemente associamos às mais características produções britânicas: o equilibrado ritmo narrativo e a sua serenidade, o rigor na reconstituição de ambientes, a qualidade das interpretações, a segunda linguagem que é a componente musical.
Tudo isso e decerto muito mais nos diz que estamos a usufruir um dos momentos infelizmente raros em que olhar a televisão tem o sabor de privilégio e que nos põem em paz com este nosso tempo em que a multiplicidade de supostas maravilhas tecnológicas muitas vezes nos sabe a embustes envenenados. E um poucochinho de reflexão acerca da televisão que a estação pública nos vem dando, designadamente na «2», e se esquecermos que a «1», seu canal principal, ainda não se desenvencilhou inteiramente da sua triste tendência para concorrer com o que de feio, porco e mau as estações privadas derramam em nossas casas, talvez possamos acreditar em que esteja em curso um esforço da operadora pública para melhorar a qualidade dos seus conteúdos. Como lhe cumpre, é certo, mas que já nos cansámos de esperar.
O currículo Krupp
Voltemos, porém, a «A Família Krupp» para sublinhar que de modo nenhum esta foi, e decerto ainda é, uma família como as outras: para lá das peripécias intrafamiliares que compreensivelmente são narradas na série televisiva, o seu percurso está entrosado na história europeia e até na história mundial. Aliás, de um modo tristemente romântico, as histórias familiar e europeia até se misturam quando no decurso da Primeira Guerra Mundial foi com um supercanhão fabricado pela Krupp e batizado de «Bertha», o nome da então «primeira-dama» Krupp, que os alemães tentaram o bombardeamento de Paris a partir de uma distância até então nunca praticada e sonharam destruir fortificações francesas.
Este momento da história Krupp estará ou não registado na mini-série, mas de qualquer modo será mais importante que o esteja outro facto, esse repugnantemente sinistro: o de durante a Segunda Guerra terem sido forçados a trabalhar nas fábricas de armamento Krupp, em situação de verdadeira escravatura, presos políticos civis e prisioneiros de guerra, em frontal e óbvia transgressão das leis internacionais. Neste primeiro episódio, só houve uma indirecta alusão aos crimes Krupp quando Alfred Krupp refere ter estado preso durante doze anos após a rendição alemã mas sem que os telespectadores possam aperceber-se das razões da condenação ou sequer se terá havido julgamento. Aparentemente, os alemães agora democráticos não estão muito atraídos pela história ainda recente dos alemães nada democráticos, e este dado remete directamente para a Alemanha actual e para o seu papel de efectivo líder da Europa. Não é que a actual Alemanha da Merkel ou de qualquer outro que venha a suceder-lhe seja parecida com a de Adolfo e dos velhos Krupp, não é disso que se trata.
Tratar-se-á, isso sim, de que os Krupp, e porventura outros como eles, continuam lá, com as suas fábricas e os seus talentos, porventura com a sua silenciosa convicção de serem a nata de um «herrenvolk» destinado a mandar. Por meios pacíficos, decerto. Mas a produção de armas não está necessariamente destinada a ser usada por mãos alemãs e por esse mundo fora há muitos que estão maduros para serem compradores de eficazes meios de matar. De onde a possibilidade de bons negócios Krupp e do poder que no mundo actual os bons negócios implicam. Tudo aspectos que a minissérie abordará ou não. O que em episódio seguinte se verá.