Morreu José Fonseca e Costa
O realizador José Fonseca e Costa faleceu no dia 1 de Novembro, em Lisboa, aos 82 anos, vítima de uma pneumonia. Ontem, quarta-feira, foi homenageado pela Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, com a exibição do seu filme «Sem sombra de pecado», baseado no conto «E aos costumes disse nada», de David Mourão-Ferreira.
O realizador, apesar de já estar doente, preparava o seu mais recente trabalho, «Axilas», filme baseado num conto do escritor brasileiro Rubem Fonseca, com argumento de Mário Botequilha. O documentário «Mistérios de Lisboa (2009), baseado no livro de Fernando Pessoa «O que o turista deve ver em Lisboa», e a longa-metragem «Viúva rica, solteira não fica» (2006) são dois dos anteriores trabalhos do cineastra, que, em 2014, foi distinguido pela Academia Portuguesa de Cinema com o Prémio de Carreira.
«O Fascínio» (2003), «Cinco Dias, Cinco Noites» (1996), a partir de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal, «Os Cornos de Cronos» (1991), inspirado no romance de Américo Guerreiro de Sousa, «A Mulher do Próximo» (1988), comédia com argumento do realizador e de Miguel Esteves Cardoso, «Balada da Praia dos Cães» (1987), drama protagonizado por Raul Solnado, sobre o romance de José Cardoso Pires, «Kilas, o mau da fita» (1980) e «Os Demónios de Alcácer Quibir» (1977) são outros filmes de Fonseca e Costa.
A longa-metragem de estreia do realizador, «O Recado», rodada em 1971, em plena ditadura, lidava de frente com a acção da PIDE. Maria Cabral, José Viana e Luís Filipe Rocha, o futuro realizador de «A fuga», «Cerromaior» e «Outra margem», eram os protagonistas desta obra, estreada em 1972, distinguida com uma menção honrosa no Festival de San Remo, que se tornou exemplo das produções do Novo Cinema português.
Fazem também parte da obra de Fonseca e Costa produções tão distintas como o documentário «Música, Moçambique!» (1980), e filmes promocionais, em que ensaiou a expressão cinematográfica, como «A metafísica do chocolate» – designação que remete para «Tabacaria», de Álvaro de Campos –, sobre a antiga fábrica Favorita, em Lisboa, e «A Cidade» (1967), documentário sobre Évora.
Fonseca e Costa iniciara a sua carreira em Itália, como assistente de Michelangelo Antonioni. O documentário «E era o mar» sobre o Hotel do Mar, do arquitecto Conceição Silva, em Sesimbra, constitui a primeira obra assinada, do cineasta.
Fonseca e Costa e os seus filmes foram distinguidos diversas vezes com o Grande Prémio do Cinema Português («Balada da Praia dos Cães», «Mulher do Próximo»), Globo de Ouro («Cinco dias, cinco noites») e em festivais como o de Madrid, de Huelva ou de Gramado.
Lutador pela liberdade
O Secretariado do Comité Central do PCP endereçou, na segunda-feira, uma mensagem de condolências à família do cineastra, manifestando o «seu sentido pesar pelo falecimento do amigo José Fonseca e Costa, figura incontornável da cultura portuguesa e um dos nomes mais marcantes do cinema português».
Na mensagem endereçada assinala-se «o cineastra, o intelectual que ao longo de 50 anos construiu uma impressionante filmografia onde pontificou uma visão da produção e da fruição cinematográfica como direitos e não como nichos de elite. Uma visão do cinema para as massas, na medida da elevação da sua consciência e não da diminuição da qualidade da sua produção, como se pode verificar no seu filme “Cinco dias e cinco noites”, realizado em 1995 a partir da obra de Álvaro Cunhal, com o mesmo nome.»
O Partido destaca ainda «não apenas o cineasta e o intelectual, mas também o Homem, que desde a sua juventude assumiu a sua condição de antifascista e anticolonialista, mantendo sempre uma ligação estreita às suas origens e uma luta persistente pela liberdade e a democracia».
Uma delegação do PCP, integrando o Secretário-geral, participou no funeral deste grande cineasta.