Alertas na alimentação

João Frazão

«Carne, peixe, não. Uns douradinhos, um bocadinho de atum uma vez por outra umas costeletas de porco, umas febras ou assim... Agora peixe fresco, carne de vaca, coisas dessas eu não compro.»

(21/Dez/2012, Rádio Renascença)

O relatório da Organização Mundial de Saúde sobre o consumo de carnes vermelhas e de carnes processadas, designadamente o fumeiro, com a reafirmação, já anteriormente veiculada, de que este tipo de alimentos são potencialmente cancerígenos, merece algumas considerações. Antes, porém, importará fazer três alertas.

O primeiro é o de que estas linhas não visam questionar a veracidade, o rigor científico ou a importância dos alertas agora assinalados pela OMS. Cada um deve ter presente as suas condições próprias e os seus antecedentes, para tomar as opções que melhor lhe convierem.

O segundo é o de que a classificação dos enchidos na mesma categoria do tabaco ou amianto não significa que tenham a mesma perigosidade, ou que se deva de todo deixar de os consumir, como se percebe pelo facto de, na mesma tabela, estar também a luz solar, sem que isso signifique que devemos sair à rua apenas à noite.

O terceiro para lembrar que já assistimos às mais variadas declarações sobre quase todos os alimentos e sobre os mais aprofundados estudos que dizem tudo e o seu contrário. Os melhores, mais saudáveis e indicados para a alimentação, passam, pela magia de uns estudos, para a categoria de perniciosos, e mesmo contra-indicados por tal ou tal circunstância e vice-versa.

Adiante.

Ao longo das últimas décadas, ao sabor dos interesses das grandes multinacionais da indústria agro-alimentar e dos fito-fármacos, por um lado, das cadeias de distribuição, por outro, foi imposto a grande parte do nosso povo uma alimentação industrializada, assente nas comidas rápidas, pré-cozinhadas, pobre do ponto de vista da diversidade e da qualidade nutritiva. Esse objectivo foi concretizado pela destruição da pequena e média agricultura, da pequena e média pesca artesanal, das pequenas e médias indústrias alimentares e até do comércio tradicional. Não foi para assegurar a qualidade dos alimentos, nem por preocupação com os consumidores que encerraram centenas de feiras e mercados e se criou cada vez mais dificuldades à leitura dos rótulos dos alimento ou se licenciou milhares de postos de cadeias alimentares que homogeneizaram a alimentação e o gosto, particularmente das camadas mais jovens.

Decorrente da adesão à então CEE, sucessivos governos aceitaram, e aplicaram com zelo, as opções que destruíram milhares de pequenas explorações agrícolas, que produziam com qualidade e segurança alimentos que agora são produzidos em explorações intensivas, à custa de toneladas de pesticidas, adubos e fertilizantes. Era o progresso, diziam-nos! Essas mesmas opções e esse mesmo progresso estiveram na origem do abate de boa parte da nossa frota pesqueira e da eliminação da capacidade de pesca nacional. Opções que perseguem os pequenos pescadores pela captura de pequenas quantidades de pescado na costa nacional, mas estimula as capturas gigantescas com barcos-fábrica, que pescam, manipulam e conservam o pescado ainda em mar-alto.

Opções que levaram à proibição e à destruição da produção artesanal de enchidos, actividade secular no nosso País, protegendo, ao contrário, a sua industrialização e manipulação.

Opções que perseguem os pequenos agricultores por pequenos erros formais nas explorações, mas deixam escapar, mesmo por baixo das suas barbas, os escândalos alimentares dos nitrofuranos, das vacas loucas, ou da carne de cavalo em lasanhas que só deveriam ter carne de vaca.

Contributo para a ruína

Portugal é parte integrante de uma vasta região cuja alimentação assenta, há séculos, na dieta mediterrânica, que foi considerada património da humanidade pela UNESCO. Como na Assembleia da República afirmámos no momento de debate de apoio à candidatura de Portugal à inclusão da dieta mediterrânica na Lista Representativa do Património Imaterial da Humanidade, «não basta afirmar e valorizar a dieta, é preciso que esteja integrada nos hábitos alimentares dos portugueses, pois essa é a melhor forma de a preservar e de a perpetuar no futuro». O que foi feito de aí para cá, para assegurar que a dieta mediterrânica fica gravada não apenas na memória colectiva e enquanto elemento museológico, mas arreigada nos hábitos e na tradição da mesa portuguesa? Desde logo, não se assegurou a disseminação desta dieta por exemplo nas cantinas dos locais de trabalho da Administração Pública ou do sector privado ou nos refeitórios das escolas, garantindo refeições equilibradas, que para alguns serão as únicas, de todas as crianças a partir do pré-escolar.

Três grupos económicos da grande distribuição, em Portugal, controlam 80 por cento do mercado, numa linha de concentração brutal da actividade económica, determinando os preços do peixe, da carne, das hortaliças, da fruta, dos lacticínios e até do pão, com traços de cartelização, que esmagam os preços pagos aos produtores, para colocarem esses produtos nas prateleiras dos supermercados a valores dez vezes superiores. O que foi feito para exigir a estas cadeias, que acumulam lucros milionários, que vendam produtos nacionais e locais, promovendo a produção nacional e para travar a especulação dos preços?

Entretanto, em Portugal os baixos salários continuam a ser a causa directa para que centenas de milhares de trabalhadores se encontrem no limiar da pobreza, apesar de terem um emprego e um salário assegurado. Assim se explica os números da ONU que afirmam que 28,6 por cento das crianças portugueses estavam, em 2011, em risco de pobreza, sendo que muitas delas não tinham acesso aos mínimos da alimentação, havendo mesmo 120 mil crianças com fome diária permanente em 2013, (mais 35 mil do que em 2012), segundo a UNICEF. Com salários destes é legítimo questionar como é que os trabalhadores e o povo podem escolher livre e responsavelmente o que querem comer.

Com este Relatório, e com a sua afirmação nos termos em que foi feita, causando um alarme social, que não corresponde aos seus conteúdos em concreto, a OMS dá um penoso contributo para a ruína e o encerramento de muitas pequenas empresas e explorações, conduzindo, objectivamente, a uma cada vez maior concentração da produção nas mãos dos que resistirem, que ficarão com as mãos mais livres para martelarem mistelas que hão-de servir de alimento aos povos de todo o mundo, e nomeadamente os portugueses, para assim lhes encherem o papinho! De boas intenções...

 



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