«Há comunistas armados a defender as fronteiras do país»
A situação actual no Líbano, como em todo o Médio Oriente, é «complexa, sensível e difícil». Quem assim a caracteriza é Jamil Safieh, membro do Comité Central e da Secção Internacional do Partido Comunista Libanês, para quem a «tradicional» ingerência do imperialismo é a grande responsável pelo caos que, garante, está instalado.
Para além da corrupção que grassa no aparelho de Estado e do apoio por parte de alguns governantes ao chamado «Estado Islâmico» (que se tem vindo a introduzir no Líbano), a grande vaga de refugiados sírios que chegou ao país – um milhão e meio numa população de três milhões, a que acrescem os 700 mil refugiados palestinianos – deixou clara a incapacidade do governo em atender a importantes necessidades sociais do povo. Em muitas regiões do Líbano não há abastecimento de energia eléctrica e de água, o lixo não é recolhido e os cuidados de saúde não são prestados.
Em torno da exigência de satisfação destas necessidades, desenvolveu-se nas últimas semanas um «poderoso movimento de massas», traduzido em «manifestações diárias» contra o governo; o Partido Comunista Libanês e a sua organização de juventude estão ao lado do povo nestes protestos, valoriza Jamil Safieh.
Nos dias que antecederam a conversa com o Avante!, conta, a situação evoluiu. O governo, que não dá sinais de pretender dar resposta às reivindicações populares, subiu a parada, ao infiltrar provocadores nas manifestações para deturpar o seu sentido e legitimar a repressão policial. Mas a luta vai continuar, garante.
Ingerência e agressão
A ingerência do imperialismo no Líbano é antiga, mas atingiu um ponto particularmente extremo em 2006, aquando da tentativa de invasão israelita do país, travada então pela resistência patriótica libanesa (que o PCL integra) e pelo Hezbolá. Israel continua a ser a principal ameaça à soberania nacional, garante Jamil Safieh.
Mais recentemente, a guerra contra a Síria veio desestabilizar ainda mais a região. Para os comunistas libaneses, o derrube do governo da Síria é um objectivo central da estratégia do imperialismo no Médio Oriente. Por um lado, porque a República Árabe Síria é aliada do Irão e do Hezbolá, dois dos principais obstáculos ao predomínio dos EUA e de Israel na região.
Mas a ofensiva contra a Síria representa também um «ataque indirecto» à Rússia, que não só tem bases na Síria como tem com esse país sólidas relações comerciais, políticas e militares. Forçar a Rússia a recuar é outro dos objectivos do imperialismo norte-americano.
Para a escalada da ingerência na Síria, no Líbano e um pouco por todo o Médio Oriente concorre ainda outro factor, revela Safieh: a intenção do imperialismo de controlar as importantes jazidas de gás recentemente descobertas na região. Os EUA estabeleceram já com o Qatar um plano para transporte deste gás para a Europa, através da Turquia, do Líbano e da Síria.
Concluindo, o dirigente do PCL afirma que os EUA pretendem «aumentar a sua influência na região», através da salvaguarda dos seus actuais aliados (Israel, Arábia Saudita e restantes monarquias do Golfo) e do alargamento dos seus apoios, através da substituição de governos que lhe são hostis por outros que lhe sejam favoráveis.
Questionado sobre o papel do designado «Estado Islâmico», Jamil Safieh não tem dúvidas em incluí-lo no lote dos aliados do imperialismo. E garante que, ao contrário do que é apregoado, os EUA não bombardeiam posições deste grupo, pelo contrário, favorecem o seu avanço no terreno.
Resistência e luta
Perante uma situação tão complexa, os comunistas têm bem definidos os seus objectivos: um primeiro e mais imediato é, desde logo, o apoio à luta das massas populares pela satisfação das suas necessidades mais elementares.
Um outro propósito, mais de fundo, é a alteração da lei eleitoral no país, que faz com que o PCL, que se estima que tenha um apoio entre os nove e os 12 por cento, não tenha qualquer deputado eleito. No Líbano, a população é dividida segundo os seus credos religiosos – e há dezenas – e cada comunidade vota em partidos próprios e tem à partida um número de lugares para ocupar (no parlamento como na administração pública). O Partido Comunista Libanês defende um sistema laico de representação proporcional.
Outro objectivo essencial para os comunistas é a salvaguarda da soberania nacional contra a agressão externa, particularmente por parte do chamado «Estado Islâmico» e de Israel. Neste momento, revela, «existem membros do Partido Comunista armados a lutar na fronteira com a Síria para travar a invasão do país».