Artificialidades mediáticas
Nas últimas semanas a TVI inaugurou um modelo de entrevistas políticas com António Costa, anunciando o convite já endereçado a Passos Coelho. Ao reservar lugar a estes dois, a TVI contribui para a campanha de bipolarização artificial, como se as eleições que enfrentaremos fossem para primeiro-ministro e não para eleger deputados à Assembleia da República.
Com um modelo pretensamente aberto às perguntas do público em estúdio e dos telespectadores, a TVI montou uma campanha mediática de várias horas em horário nobre, em dois canais e com destaque nos noticiários que antecederam e se seguiram à entrevista. Podemos afirmar com segurança que nunca o PCP e a CDU tiveram tratamento idêntico da parte da TVI. Vimos transformar um espaço que se pretendia informativo num autêntico tempo de antena do PS por onde Costa se passeou.
Mal a entrevista terminou, vimos os três canais informativos a serem ocupados pela análise e comentário à mesma, ocupando o espaço mediático, mesmo dos canais concorrentes. Nos noticiários do dia seguinte vimos repetir a dose, tanto nas três estações de televisão, como nos principais jornais diários e semanários.
Se é indiscutível a relevância das respostas que o PS tem a dar aos problemas do País, já o tratamento que mereceu esta entrevista é incompreensível. Até porque nenhum jornalista ou comentador se lembrou de duas questões centrais: nem do carácter discriminatório, de perversão do regime democrático e do papel que cabe aos órgãos de comunicação social; nem das perguntas que ficaram por fazer, nomeadamente sobre o peso insustentável da dívida pública.
A ideia falsa de que existem duas ligas de partidos, uma com PS e PSD e outra com os restantes, é alimentada pela comunicação social dominante e vem dar razão a quem, como o PCP, alertou e combateu a lei que desregula escandalosamente o papel que os media devem desempenhar num período eleitoral.
Também as sondagens que vão sendo publicadas, e particularmente a análise que delas é feita por pretensos especialistas, têm lugar nesta campanha. Sabemos que a sondagem que interessa é aquela em que todos participaremos no Outono. Mas sabemos igualmente como as sondagens podem influenciar o sentido de voto daqueles que querem mudar de política mas hesitam no seu sentido de voto, particularmente quando todos os comentadores escondem as duas conclusões mais evidentes que resultam da análise das mesmas: o reforço da CDU e a derrota do PSD/CDS.
Se é certo que esta imensa campanha mediática se intensificará nos próximos meses, esta não poderá esconder a realidade que está cada vez mais evidente. Como as próprias sondagens indicam, cresce o número de portugueses desiludidos com o rumo de empobrecimento a que a política de direita nos conduziu e que aspiram a uma alteração na vida do País.