O desfile dos ofendidos

Correia da Fonseca

Já aqui terão sido referidos, e por mais de uma vez, os programas ditos interactivos que todos ou quase todos os dias úteis podemos encontrar nos canais especialmente vocacionados para as diversas formas de informação, em regra só acessíveis por cabo embora também, eventualmente, graças às já vetustas antenas parabólicas. Poderá talvez dizer-se que os conteúdos de tais programas são repetitivos, que pode entender-se que acabam por tornar-se dispensáveis, mas não é exactamente assim. A questão é que os cidadãos telespectadores que usam a interactividade de tais programas para falarem de si, das suas vidas, dos seus problemas e muitas vezes dos seus desesperos, acabam por fornecer um quadro da actual realidade portuguesa bem mais exacto e eloquente do que o fornecido diariamente pelos telenoticiários sempre com a tónica nos acidentes e crimes havidos, quando não nas cheias acontecidas em qualquer estado norte-americano. É certo haver excepções a esta regra muito sumária: por exemplo, nos dias mais recentes foi muito noticiada e até antecipada a chamada «crise grega» e a pouco disfarçada expectativa do esmagamento da Grécia pela disciplinada força conjunta dos países do Norte e centro da Europa, brutamente democráticos, trabalhadores e poupadinhos, capitaneados por quem bem sabemos. Quanto ao conhecimento do mais característico e dramático da realidade portuguesa, porém, os telenoticiários são singularmente ineficazes. Com alguns momentos de excepção que é preciso não esquecer, como a série de reportagens enquadradas na rubrica «Linha da Frente» da RTP1. E, bem se sabe, com essa gigantesca excepção, de tal modo gigantesca que adquiriu dimensões de monstro, de quanto diz respeito ao grande, grande mundo do futebol.

De súbito, a pressa

Voltemos, porém, ao que mais interessa: aos programas onde, tendo sido dada voz e audiência ao comum dos cidadãos portugueses, podemos conhecer o efectivo estado do «País real», como em tempos foi moda dizer-se. Para os estúdios das estações telefona vária gente: trabalhadores desempregados ou ainda com posto de trabalho, estudantes, reformados, juristas, empresários, domésticas, pais que perderam os filhos para a emigração, mulheres daquelas que Joaquim Lagoeiro um dia designou por «Viúvas de vivos» no título de um romance notável, muitos velhos, muitos jovens também. Do que contam, do que testemunham, do que opinam, emerge uma espécie de mapa sonoro de um país arruinado, de uma população injustamente condenada por crimes que outros cometeram. Ouve-se e percebe-se com atroz clareza que aquelas são vozes de um povo ofendido e, pior que isso, traído. Acontece quase sempre que ouvir essas vozes é saber que elas pertencem a alguém que identifica quem traiu, mas por vezes sucede surgir uma voz de quem foi enganado e ainda não se apercebeu disso. Essa é voz de quem foi duas vezes traído, duas vezes roubado: nos factos e no conhecimento de quem traiu. De qualquer modo, uns e outros enformam um tristíssimo desfile sonoro cuja audição consubstancia uma espécie de retrato áudio deste nosso País nesta hora. Ouve-se e percebe-se que as coisas não podem continuar assim. Ouve-se e não é preciso ser um cidadão politizado para entender que os que atraiçoaram não podem continuar o crime. Sidónio Muralha (um nome e uma poesia a não esquecer nunca) escreveu um dia que «(…)o Dia do Juízo não é no Céu, é na Terra». Nem é preciso apoiarmo-nos em largas convicções políticas, basta a solidariedade entendida na sua adequada dimensão para entendermos que o elementar dever manda que contribuamos com um gesto pessoal para que chegue esse Dia ou, no mínimo, seja dado um passo para ele. É frequente dizer-se, e nestas colunas tem sido dito, que a História não tem pressa, nós é que sim. É certo. Mas a televisão, designadamente no decurso dos tais programas interactivos, traz-nos por vezes as vozes de traídos e humilhados que foram atirados para situações insuportáveis. E aí, então, uma onda de pressa parece instilar-se-nos nas veias.




Mais artigos de: Argumentos

A «privatização» das Forças Armadas

A expressão «privatização» das Forças Armadas pode, sem dúvida, ser considerada chocante para uns e exagerada para outros, mas nem por isso é menos verdadeira. Estamos naturalmente a falar não da venda de acções mas sim das acções...