Sem perdão
Não é novidade, mas voltou a acontecer a propósito da apresentação dos objectivos e eixos essenciais do Programa Eleitoral do PCP: muitos órgãos de comunicação social referiram-se à proposta do Partido de renegociação da dívida com afirmações do género «PCP pede perdão da dívida».
Pode parecer pormenor, esquisitice, vontade de embirrar, ainda por cima numa situação em que a comunicação social deu, ao contrário do que vem sendo hábito, alguma cobertura à iniciativa do PCP. Mas não é: «perdoar» a dívida é muito diferente de propor a sua renegociação.
«Perdoar» pressupõe erro e culpa. Que mal fez o povo português para ter que ser «perdoado»? Que mal fizeram os milhões de desempregados, os milhões de pobres, as centenas de milhares empurrados para a emigração forçada, as crianças condenadas à pobreza, todos os destinados a uma morte antecipada pelos cortes no Serviço Nacional de Saúde? É que até os partidos da troika nacional já desistiram da tese de que todos vivemos acima das nossas possibilidades…
«Perdoar» pressupõe súplica e favor. Usar essa palavra implica olhar para o povo português como se estivesse de joelho no chão e chapéu estendido, à melhor moda do Zé Povinho de Bordalo Pinheiro, quando na realidade o nosso País pagou na última década mais de 78 mil milhões de euros só em juros dos «empréstimos» e das «ajudas» pelos quais devíamos estar infinitamente gratos. Alguém ganhou muito, muito dinheiro com este negócio do endividamento.
«Perdoar» transfere para os credores, para os accionistas e os especuladores aquela que é uma decisão soberana, de um povo consciente e digno. Uma decisão de gente que quer pagar o que deve, mas não quer ser roubada nem espoliada dos seus mais elementares direitos.
Fazemos questão de usar as palavras certas, sim. Renegociar a dívida, nos seus prazos, juros e montantes é uma questão decisiva para romper com a política de direita e abrir a possibilidade de desenvolvimento do País. Perdão é o que o povo português não dará aos responsáveis pela situação a que chegámos.