PCP assinalou os 70.º aniversário da Vitória

Para que nunca mais aconteça o nazi-fascismo

Hugo Janeiro

Com um extraordinário espectáculo, o PCP comemorou, sexta-feira, 8, a derrota da Alemanha hitleriana na Segunda Grande Guerra Mundial. Música, poesia, teatro, canto coral, acompanhados da projecção de imagens da época, fizeram parte do programa de uma iniciativa que suscitou repulsa pelo horror, orgulho pelos que resistiram, e convicção de que só com a luta por avanços progressistas e revolucionários, com o reforço dos comunistas e de amplas alianças anti-imperialistas, será possível impedir que o ventre fecundo que gerou a besta nazi-fascista volte a parir a barbárie, como alertou Bertolt Brecht.

Unidos contra o fascismo e a guerra

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Na sessão ocorrida em Lisboa, interveio Jerónimo de Sousa (ver caixa), para quem, «na complexa e instável situação internacional dos nossos dias, o perigo de um conflito militar de grande proporções, de uma nova guerra mundial, não deve ser subestimado». Isto porque «os sectores mais reaccionários e agressivos do grande capital apostam de novo no fascismo e na guerra como resposta para a crise do capitalismo e como forma de prevenir e enfrentar explosões de revolta social e de transformação revolucionária que inevitavelmente irromperão». Daí ser «necessário prosseguir com determinação a luta para que tragédia semelhante àquela que há 70 anos terminou, jamais aconteça».

Para cumprir tal objectivo, importa impedir a manipulação da história e perspectivas anistóricas, combater conteúdos anti-dialécticos e apelos ao conformismo das inevitabilidades, enfrentando com solidez ideológica a batalha das ideias. É fundamental denunciar a raiz e os promotores do nazi-fascismo e exaltar com viva pertinência o exemplo e a razão dos que resistiram, prosseguindo na actualidade a sua luta.

Em boa medida, foi esse o fio condutor do espectáculo inédito e de rara qualidade no panorama político-cultural nacional que o PCP realizou no Auditório Camões. Creio ter sido também isso que assimilaram as centenas de pessoas que enchiam por completo a sala, sentadas nas cadeiras, nas escadas, instaladas nos balcões superiores ou aglomeradas nos escassos metros quadrados que antecedem as duas portas de entrada. Muitas, entre as quais o Secretário-geral do PCP, já depois de passarem os olhos pela exposição disposta na antecâmara do anfiteatro, mostra que, assinale-se, merece o agendamento de uma visita mais atenta.

Do lado direito do palco, na perspetiva de quem se encontrava na assistência, foi projectada a contabilidade das vítimas mortais da Segunda Grande Guerra Mundial, por país. A União Soviética e a China no dois primeiros lugares. Um contador que permanentemente ia dos zero aos mais de 60 milhões, tudo somado. Um tic-tac que nunca cessou a sua «tarefa» de recordar o lastro sangrento da manifestação mais violenta e terrorista da ditadura do grande capital: o nazi-fascismo.

Espectáculo de classe

Exercício semelhante de memória projectado para a intervenção presente, noutras formas, foi feito no espectáculo propriamente dito. A voz de fundo, a cargo de Débora Santos, não introduziu apenas a mudança de expressão artística. Discorreu palavras que apelaram à reflexão, salientando que o curso do conflito imperialista que empurrou os povos, como carne para canhão, para uma matança fratricida – da invasão da União Soviética pelas hordas nazi-fascistas até ao içar da bandeira vermelha com a foice e o martelo no topo do Reichtag, em Berlim –, foi pavimentado a incalculável sofrimento e tragédia humanos, durante cerca de dois mil dias. Mas realçando, igualmente, por ser de inteira justiça e verdadeiro, a resistência nas suas mil formas, na sua essência apaixonada, esperançosa e jamais resignada, mesmo que o preço fosse a própria vida, como o foi milhões de vezes sem arrependimento.

No palco, ao longo de mais de duas horas, cerca de 60 actores e actrizes, músicos e cantores, deram protagonismo, alternadamente, às músicas do mundo e da resistência, às poesias da guerra e da resistência antifascista, contextualizando sempre a obra e os autores.

Depois de Rita Lello ler extractos do prefácio de Álvaro Cunhal ao livro «O IV Congresso do PCP visto 50 anos depois», nas vozes de Catarina Moura e Joana Manuel ouviu-se o «Chant des Partizans» e a «Bandiera Rossa» incentivando-nos a marchar; o «Hino de Caxias» e a balada russa «Escura é a noite», aproximando-nos das «trevas percorridas» nas prisões fascistas em Portugal e da vida dos soldados soviéticos na frente de guerra; bem como a paródia de Fernando Pessa, «Compadre Adolfo», remetendo-nos para a falsa neutralidade do regime de Salazar e para o engenho de quem insistia em denunciá-la entre as malhas da censura.

Catarina Moura e Joana Manuel, de novo acompanhadas por João Gomes (piano), Manuel Pires da Rocha (violino) e Tiago Santos (guitarra), responsáveis pelos arranjos musicais originais, voltariam ao palco para interpretarem «A morte saiu à rua», sobre o assassinato pela PIDE do pintor e funcionário clandestino do PCP José Dias Coelho; «Jarama Valley», em homenagem aos brigadistas internacionais que combateram pela república Espanhola; «Bella Ciao», hino de autor incógnito dos partizans italianos, e o Hino da Companhia de Estudantes «Lord Byron», da guerrilha juvenil antifascista grega. Joana Manuel cantou esta última na língua original, deixando boquiaberto o público, como, aliás, havia sucedido quando Catarina Moura cantou «Escura é a noite» em russo.

Emoção e razão

Entre músicas, os actores Fernando Jorge, Francisca Lima, Teresa Sobral e André Albuquerque declamaram a «Cartilha de Guerra de Alemã», de Bertolt Brecht, «A Bomba», de Egito Gonçalves, «A que Morreu à Portas de Madrid», de Reinaldo Ferreira, «Balada dos Suplícios», de Louis Aragon e «Carta a Stalinegrado», de Carlos Drumond de Andrade. A José Wallenstein, Adriana Rocha, Fernando Tavares Marques e Maria do Céu Guerra coube declamar, respectivamente, «Espanha no Coração – Canto às Mães dos Milicianos Mortos», de Pablo Neruda, «Um Fantasma Percorre a Europa», de Rafael Alberti, «Prognóstico», de Bertolt Brecht, e «Liberdade», de Paul Éluard, talvez dos mais ditos e amados poemas sobre o período da opressão nazi-fascista e da luta para o seu derrubamento, lembrou Maria do Céu Guerra.

A caminho do encerramento da iniciativa – que terminou com Luísa Basto, Catarina Moura, Joana Manuel e Francisco Bartolomeu (piano) a interpretarem o «Avante, Camarada», e a plateia, em uníssono, a cantar com eles (o que se repetiria com «A Internacional», de punhos erguidos) – teve lugar o teatro, com flashes de movimento baseados na memória colectiva dos alunos do curso de Artes e Espectáculos do IDS/A Barraca, sob encenação de Rita Lello e levada à cena pelos mesmos. Isto depois da projecção da declamação de «A Bandeira Comunista», de Ary dos Santos, da interpretação de «Heróicas» pelo Coro Lopes-Graça, conduzido pelo Maestro José Robert.

Tudo a espoletar emoções e certezas que brotam do coração e da razão, como o orgulho de ser comunista e deste Partido, de estar do único lado certo na luta de classes transportando o projecto revolucionário, estribado na experiência secular dos trabalhadores no caminho da sua emancipação social, nas lições do passado e na intervenção consciente e organizada. Unidos, contra o fascismo e a guerra.


O ventre fecundo e a sua besta

Tomando a palavra no encerramento da sessão comemorativa, Jerónimo de Sousa sublinhou que o nazi-fascismo «foi a mais violenta e terrível forma de dominação de classe jamais gerada pelo capitalismo», é inseparável da sua maior crise e constituiu «a resposta dos círculos mais reaccionários e agressivos do grande capital ao ascenso da luta dos partidos comunistas e do movimento operário e às grandes movimentações de massas em prol de profundas conquistas sociais e transformações revolucionárias, inspiradas na Revolução de Outubro e nos êxitos, conquistas e realizações alcançados pela União Soviética».

Não é pois de estranhar, pesem as falsificações e a tentativa de reescrita da história – entre as quais avultam o branqueamento e cumplicidade do fascismo português para com a Alemanha hitlleriana e a sobrevivência da ditadura de Salazar devido ao apoio das grandes potências capitalistas e da NATO; o apagamento do papel dos comunistas como vanguarda do desenvolvimento de impetuosas acções de massas pela liberdade, a democracia e a paz; e a promoção do anticomunismo como antecâmara de ofensivas antidemocráticas –, que o regime apoiado pelo grande capital alemão e cuja ascensão «foi acompanhada pela conivência das grandes potências capitalistas», tenha elegido a URSS como o seu principal alvo.

Nesse sentido, «não é demais recordar que foi na Frente Leste que tiveram lugar as maiores e mais decisivas batalhas da Segunda Guerra Mundial» e que ali foram derrotadas «a esmagadora maioria das hordas nazi-fascistas», referiu o Secretário-geral do PCP. «Nada poderá apagar o facto de que foram a União Soviética e o seu heróico povo os principais obreiros da Vitória», insistiu, antes de frisar, igualmente, «que nada poderá apagar a luta heróica da resistência antifascista».

Perigo à espreita

A Vitória «e o grande prestígio alcançado pela União Soviética e pelos ideais do socialismo criaram uma nova situação mundial», prosseguiu Jerónimo de Sousa, para destacar a consequente dinâmica em que «milhões de seres humanos, outrora excluídos e despojados de qualquer intervenção política e social», tomaram nas suas mãos o respectivo destino, conquistando notáveis avanços no domínio da emancipação social e nacional, do progresso económico e social, quer em territórios até então colonizados por impérios que soçobraram ao fim da guerra, quer nos países capitalistas.

«Avanço na luta de emancipação que se confrontou de imediato com a contra-ofensiva do imperialismo, de que os criminosos lançamentos pelos EUA das bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagazaki são terrível expressão», lembrou.

Estes e outros hediondos crimes, ocupações, saques, liquidação, esmagamento e condicionamento de avanços populares que lhe seguiram, mostram que o mesmo sistema que pariu o nazi-fascismo preserva o ventre fecundo, como advertiu Bertolt Brecht.

Assim, «perante o avanço de forças fascistas, o crescimento do militarismo, a multiplicação de guerras de agressão imperialistas; perante os crescentes ataques a direitos, liberdades e garantias fundamentais a pretexto do “combate ao terrorismo”; perante a institucionalização de sistemas de poder supranacional ao serviço do grande capital e das grandes potências que, como a UE colocam em causa a soberania nacional e a democracia; perante o domínio imperialista dos fluxos de informação e o controlo dos grandes meios de comunicação social pelo grande capital, mais necessário se torna conhecer a verdade histórica e aprender com as lições do passado», considerou Jerónimo de Sousa.

E concluiu, afirmando que «o PCP continuará empenhado, em Portugal e no plano internacional, pela sua acção própria e no quadro do movimento comunista e revolucionário internacional e da frente anti-imperialista, em contribuir para a unidade na acção das forças da paz e do progresso social».


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