A fronteira
Agora e já desde Janeiro, a partir do Centro de Produção do Norte, a Radiotelevisão Portuguesa transmite «Leitura Agora», um programa acerca de livros, de autores, dessa prática que muitas vezes parece estar em vias de extinção que é a leitura. Transmite-o pela RTP2, naturalmente, pois isso de ler não é tema de que se fale num canal de grande audiência como a «RTP1» a menos que se trate da eventual leitura da imprensa desportiva, e ainda assim com conta, peso e medida. O caso é que com a aparente revalorização do Centro de Produção do Norte e a consequente redistribuição de tarefas parece ter sido reforçada a função culturalizante da «2», que aliás disso bem precisava, um pouco como se por Quem de Direito, é claro, tivesse sido decidido que essas obsolescências geralmente abrigadas sob a designação generalizante de Cultura, praticamente só interessantes para um minguado punhado de velhos sobreviventes da epidemia de gripe, fossem confiadas aos do Porto, cronicamente queixosos de discriminações negativas, desse modo lhes permitindo algum sentimento de orgulho e a ilusão de merecerem atenções do poder lisboeta. Sem especial esforço de memória ou consultas a programações, é possível lembrar alguns outros programas de idêntico carácter: «Visita Guiada», «Grandes Quadros Portugueses», uma ou outra biografia de figuras destacadas da literatura ou das artes portuguesas. Fica assim a RTP ao abrigo da eventual suspeita de ter para com a acção cultural algum ódio secreto e fica o seu canal principal livre para as joias da sua programação, género «Got Talent Portugal» ou «Bem-vindos a Beirais», essa interminável pastilha elástica que terá o efectivo mérito de ajudar à difícil sobrevivência de alguns actores portugueses.
Talvez o fim de um mundo
Temos, pois, que a televisão pública portuguesa transmite programas eventualmente estimulantes da curiosidade cultural e da feliz fruição que o acesso à cultura permite, o que é uma boa coisa mesmo quando a transmissão é feita por canais pouco frequentados em geral e porventura menos ainda por telespectadores menores de cinquenta anos. Quando entramos na questão dos níveis etários, porém, a situação agrava-se: é que, ao que consta, os jovens estão cada vez mais distantes da TV, conquistados, fascinados e porventura viciados pela Net e pelos meios de comunicação electrónica em geral. Ora, parece certo e até evidente que os temas e interesses culturais só por rara excepção serão procurados ou estarão presentes nesse novo mundo de comunicação/informação que verdadeiramente «capturou» a juventude actual que, como bem sabemos, depressa se avizinhará da maturidade e passará a enformar a paisagem civilizacional em que vai viver. Dir-se-ia que surgiu uma espécie de fronteira que separa um território onde a leitura de livros ainda ocorre e um outro em que tudo começa e acaba num ecrã sob a forma de mensagens quase sempre sintéticas, e que é neste segundo território que está a generalidade dos jovens, isto é, o futuro. É, por essa via, um mundo que verdadeiramente ameaça encerrar-se após séculos de caminho difícil, cortado por episódios terríveis mas apesar de tudo sempre ascendente, cravejado de momentos e de obras admiráveis, o mundo da «Galáxia Gutenberg» para usar aqui a fórmula baptismal de McLuhan. Não parece que alguém saiba de ciência certa se essa espécie de derrocada será ou não inevitável, independentemente de poder ser facilitada pela condenação da leitura a um factual ostracismo nos telecanais dominantes, ou se é possível resistir-lhe com um êxito mínimo usando esse terreno e decerto outros mais. Talvez se saiba, isso sim, que também nesta matéria a resistência é um dever porque a preservação do livro e da leitura está na linha da defesa de admiráveis conquistas humanas sem que, por isso, se incorra no absurdo disparate de hostilizar os meios, aliás tecnicamente admiráveis, chegados posteriormente. Sabe-se, sim, que a TV pública tem nessa resistência um lugar importante, se não fundamental. E sabe-se que, também nesta matéria, a deserção seria/será um crime.