A trupe
Além da piada que estas coisas têm, há que chamar os bois pelos nomes e dizer já que o último entremez do Governo foi vertiginoso e substantivamente definidor.
O pano de cena é a obsessão do Governo em privatizar a TAP a mata-cavalos e o entremez – em registo paroquial, num proscénio dos que às vezes existem nas caves das igrejas e fazendo do País a assistência pacóvia da récita – desenrolou-se com quatro protagonistas, em três actos e na virada dramática de um dia para o outro.
Primeiro Acto: os «protagonistas do Ministério da Economia» entram em cena e debitam, à vez, as suas falas.
O ministro Pires de Lima, com a voz grave e entre-parênteses de seu timbre, proferiu que «nós não podemos estender esse acordo (com os sindicatos para a privatização da TAP) a sindicatos que não se quiseram sentar connosco à mesa», a que se segue a declaração do secretário de Estado dos Transportes, Silva Monteiro, que, num tónus de irreprimível desforço, confessou que «eu não consigo compreender é como é que nós estenderíamos protecção a quem não está neste acordo».
Segundo Acto: no dia seguinte entra o chanceler Coelho na Assembleia da República, já com as orelhas a arder pela indignação geral de se ouvir ministro e secretário da Economia a ameaçar inconstitucional e ilegalmentemente sindicalistas que discordem do Governo, e profere baritonamente: «quaisquer acordos que possam existir, nomeadamente de natureza sindical, terão de ser respeitados pelos operadores que vierem a adquirir a TAP e aqui prevalece a norma global de Direito, evidentemente, e portanto não há nenhuma restrição na aplicação destes acordos (com os sindicatos)».
Terceiro Acto: secretário de Estado sai de cena e regressa o ministro Pires, com a solenidade algo macambúzica, para dizer que «nesta garantia laboral prevalece, como não podia deixar de ser, a lei geral do Trabalho em vigor. É esta garantia que também queremos dar».
A encerrar o entremez surge o «vice» Portas estridulando como sempre alegrias na voz, a determinar pachecalmente que «a questão ficou clarinha, hoje».
Cai o pano e o País encolhe os ombros dizendo, muito provavelmente, «sempre a mesma cambada».
O episódio é grotesco e, como diria o outro, dum grotesco «apodítico, inconcusso e quase escatológico». Na verdade, este é e sempre foi o funcionamento do Governo Passos/Portas – mentir ou contraditar-se como quem respira – e neste modus operandi cabem os traços concretos do perfil desta gente: dizer literalmente uma coisa e o seu contrário com o à-vontade de quem não estuda, não se interessa nem conhece os assuntos e por isso os não respeita, e muito menos às pessoas e ao País sobre quem recaem as monstruosidades destes actos presumidamernte «governativos».
Este Governo é, visceralmente, um entremez. E passará à História como uma trupe de feira.