A raiz

Correia da Fonseca

Nem é preciso recordá-lo: sabe-se que as operadoras de televisão gostam de crimes, isto é, gostam deles na qualidade de mercadoria que se vende bem à generalidade do povão que elas no fundo desprezam mas de que precisam, e na maior quantidade possível, pois povão telespectador atrai publicidade, isto é, dinheiro, que é o mais verdadeiro alimento da sua alma. Assim, quase se pode dizer que dia sem crime nos telenoticiários é para elas dia semiperdido, tanto e de tal modo que não tendo ainda chegado o dia em que um departamento especializado das operadoras de TV se aplique a encomendar o crime diário com exclusivo de reportagem incluído no contrato havido, poder-se-á chegar a esse apuro como contribuição para a quotidiana corrida às audiências que empresas especializadas medem e controlam. E não será de mais supor que também para muitos telespectadores o crime diariamente incluído na dieta fornecida é um elemento apetecido, ainda que a apetência não seja claramente formulada, e por isso até já aí temos um canal, versão televisiva de um jornal de grande venda, que bem pode ser considerado como especialista na cobertura de crimes havidos, e talvez não só dos havidos mas também porventura dos supostos ou inventados, pelo que não é excessivamente arriscado prever-lhe um longo e feliz futuro. De qualquer modo, não foi exclusivo seu a recente notícia de um crime de morte acontecido no Norte: este foi objecto de informação em todos ou quase todos os canais, os generalistas e visíveis por todos os telespectadores e os especialmente informativos, acessíveis apenas a quem possa e queira pagar um poucochinho mais. E, porque esse homicídio pareceu particularmente significativo, talvez até eloquente, chamou a atenção de alguns. E também destas colunas.

Um responsável encoberto

Vejamos o que a TV contou. O caso ocorreu numa pensão, ou talvez hotel modesto, onde habitava um cidadão que decerto por fundadas e nada alegres razões recebia do Estado um subsídio, provavelmente o RSI, que embora minúsculo lhe bastava para pagar mensalmente a hospedagem, assim se poupando à cidade o acréscimo de mais um sem-abrigo a adicionar às centenas que já por lá há e que, por sinal, foram muito lembrados na quadra que terminou há dias e certamente voltarão a sê-lo lá para o fim do ano que começou agora. Aconteceu, porém, que em consequência de uma decerto sábia decisão do senhor ministro da tutela, foi o subsídio suspenso, ou talvez definitivamente terminado. As notícias não explicaram o fundamento da decisão, terá sem dúvida estado de acordo com justíssimas regulamentações, mas essa justeza não obstava a que o tal cidadão continuasse sem recursos, se bem me lembro até ferido por uma incapacidade parcial e, em consequência, que a hospedagem ficasse por pagar e constituísse dívida com clara tendência para crescer e nenhum vislumbre de solução. Com ela se preocupava o proprietário da pensão ou hotel, cuja actividade principal não será exactamente a prática do Bem, pelo que exigia com crescente intensidade o pagamento dos valores devidos ou, na alternativa, o despejo do hóspede devedor. Preocupava-se este até à proximidade do desespero, pois bem se apercebia de se aproximava o momento em que seria obrigado a abandonar tecto que o defendia do frio e de outros adivinháveis males sem sequer imaginar alternativa para o risco. Neste quadro trocaram palavras agrestes, invectivas, talvez insultos radicados em iras e também angústias. Até que, um dia, o hóspede faltoso terá perdido a cabeça, usou uma faca ou instrumento semelhante e assassinou o homem que parecia empurrá-lo para a dura inclemência das ruas. Foi preso, é claro, e a desgraça havida solucionou-lhe assim o problema do alojamento. Mas em sua substituição ficou um crime, a morte de um homem. Com um directo responsável à vista: um desgraçado a quem havia sido retirado o RSI ou subsídio equivalente. E, se bem entendo, um responsável encoberto, esquecido, que contudo terá estado na raiz do sucedido: o senhor ministro que decidiu a supressão da magra mensalidade que garantia um tecto ao homem que matou.




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