Um abraço de três dias

Nuno Gomes dos Santos

Braço a braço, eia!, upa!, força!, se ergue a tenda, se alindam espaços, se armazenam comes e bebes, se acendem fogueiras de alegrias, de churrascos ou outras, se preparam palcos, se derramam canseiras felizes.

Do Minho vem vinho verde, das Beiras queijos curados, de Setúbal a sardinha, do Alentejo o pão, da Madeira cai a poncha, dos Açores vinho de cheiro, do Algarve bolos de amêndoa, de Lisboa sai um fado, do Porto rabelo as tripas, de Santarém corridinho escorre o vinho de Almeirim. E por aí fora, numa vicentina tarefa de dizer, olhando a obra, «pois assim se fazem as cousas!»

Depois vem, da Cuba Livre, um «mojito» de hortelã. E, dobrando Cabo Verde, chega-se à África nova, num abraço solidário em direcção ao futuro.

Enquanto isto uma voz, debruada com guitarras e bater de peles, soletra um «pop» atrevido que dará lugar depois ao rock, à balada, à sinfonia, ao cante.

A rematar ouvir-se-á falar de futuro, de luta, contra «mercados» e «mercadores», viva o povo, abaixo os neo-fascistas ou gente travestida de «democrata», pela Liberdade e com Abril no coração.

Os livros também fazem a festa, tal como os cêdês. O teatro e o cinema lá estarão, rumo ao socialismo. O desporto joga a nosso favor. As artes plásticas mostram-se. Os artistas sobem aos muitos palcos. A amizade anda por ali à solta. Evoca-se Ary e Carlos Paredes. Mal sabiam Chopin, Beethoven, Schumann e Mozart que escreveram (também) um Concerto para Cravos e Orquestra.

Prova-se petiscos acompanhados à cerveja e à guitarra. Adquire-se recuerdos e souvenirs em várias línguas camaradas. Baila-se ao ritmo de rumbas, czardas, tangos e malhões. Ouve-se cantigas em português e em outras línguas mais ou menos familiares e, na ocasião, todas amigas. O mundo está, connosco, de Atalaia.

Não há festa como esta!

 



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