Embates inevitáveis
A I Grande Guerra forçou a clivagem entre os sectores revolucionários e oportunistas e foi contexto da eclosão do mais marcante acontecimento no percurso da humanidade: o nascimento do primeiro Estado proletário com o triunfo da Revolução Socialista de Outubro, inaugurando uma época de grandes transformações no período histórico da transição para o Socialismo.
O primeiro grande conflito à escala planetária traduziu por meios violentos a guerra político-económica travada entre as potências dominantes no dobrar do século XIX para o século XX. O Império Alemão, culminando com o predomínio do capital financeiro um acelerado processo que havia unificado um conjunto de territórios rurais transformando-o numa grande potência industrial, científica e militar, reclamava a repartilha do globo. A agressividade germânica na conquista de possessões coloniais e semi-colónias, de África à Ásia, passando pelo Médio Oriente, é disso reflexo, porém insuficiente, dada a oposição dos impérios britânico, francês e russo.
O embate era inevitável. O amadurecimento do capitalismo levara-o à sua fase superior, como brilhantemente sintetizou Lénine num «ensaio popular», publicado em meados de 1917, no qual revela e analisa os traços característicos do imperialismo1. Confrontavam-se novos e velhos impérios que registaram progressos económicos e políticos a diferentes ritmos, conforme a lei do desenvolvimento desigual do capitalismo também desvendada por Lénine, mas que não se desencontraram no tempo e no espaço. «No capitalismo são impossíveis outros meios de restabelecimento (...) do equilíbrio alterado que não sejam as crises na indústria e as guerras na política»2, considerou.
Clivagem histórica
Quando a 4 de Agosto de 1914 os deputados do Partido Operário Social-Democrata Alemão votaram favoravelmente os créditos de guerra, consumou-se a degenerescência da II Internacional para o campo do oportunismo e o abandono das posições de classe que há muito motivava intenso combate por parte de Lénine e dos sectores mais avançados do movimento operário.
A propósito do Congresso Internacional Socialista de Estugarda, realizado em 1907 (sete anos antes do início da I Grande Guerra, portanto), Lénine já salienta a acesa discussão ocorrida sobre a questão colonial, acusando o «oportunismo socialista» de, com «frases evasivas sobre a possibilidade da aceitação em princípio da política colonial (...) dar o passo decisivo para a submissão do proletariado à ideologia burguesa, ao imperialismo burguês»3.
O combate ao militarismo e à guerra e os seus desdobramentos tácticos para o desenvolvimento de «uma consciência mais viva da solidariedade internacional dos operários»; o desmascaramento da «falsidade do patriotismo burguês», da divisão da classe operária pela exacerbação dos nacionalismos e do negócio belicista, e a utilização da «crise gerada pela guerra para apressar o derrubamento da burguesia», foram pontos de fricção entre revolucionários e oportunistas (mas também com sectores semi-anarquistas) que continuaram a ser analisados por Lénine4.
Na Conferência de Basileia realizada em 1912, porém, «os socialistas de todo o mundo declararam solenemente (…) que consideravam a futura guerra europeia como uma empresa “criminosa” e reaccionaríssima de todos os governos». Não obstante, dois anos depois, «em vez da táctica revolucionária, a maioria dos partidos sociais-democratas aplicaram uma táctica reaccionária, colocando-se ao lado dos seus governos e da sua burguesia. Esta traição ao socialismo significa a falência da II Internacional (1889-1914)», constatou Lénine5.
Nasce o mundo novo
Analisando as condições objectivas que levaram ao reforço do oportunismo no seio do movimento operário, Lénine salientou a transformação da «utilização da legalidade burguesa em servilismo para com ela» e o desenvolvimento, com a guerra, do «social-chauvinismo»6. Após o início da I Grande Guerra, não tardou a que os dirigentes consequentes com o internacionalismo proletário fossem perseguidos (deportação dos deputados do Partido Operário Social-Democrata Russo para a Sibéria, perseguição dos comunistas alemães, etc.), não raramente com o auxílio dos chefes da II Internacional que os viam como uma ameaça na mobilização das massas, vítimas de uma guerra de crueldade inédita.
Simultaneamente, Lénine e os revolucionários procuraram reconstituir o movimento operário, primeiro tentando unir o possível nas conferências de Zimmerwald (1915) e Kiental (1916), mas face ao revisionismo mais empedernido, partiram para a ocupação do espaço deixado vago pela II Internacional.
A Internacional Comunista, fundada no alvor da Revolução Socialista de Outubro de 1917, prosseguiu o combate ao oportunismo e foi pólo fundamental na criação e desenvolvimento de numerosos partidos comunistas em todo o mundo. Como o PCP, fundado em 1921, estes destacamentos de vanguarda foram essenciais na difusão da teoria e prática marxista-leninista e no fomento da solidariedade de operários e trabalhadores dos cinco continentes para com o primeiro Estado proletário da história. Milhões bateram-se na defesa da jovem democracia e das conquistas no país dos sovietes, fonte de inspiração e ânimo. O triunfo da Revolução de Outubro confirmou a justeza da táctica revolucionária de Lénine de aproveitar a crise gerada pela guerra imperialista para derrubar a sua própria burguesia.
Tentativas revolucionárias semelhantes ocorreram logo em 1918, com destaque para a revolta na Alemanha, liderada por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, a qual, apesar de afogada em sangue em 1919, apressou a derrota do Império Alemão e o fim da guerra.
A República Soviética esteve, entretanto, em perigo. Um dia depois da tomada do Palácio de Inverno em São Petersburgo, a 7 de Novembro de 1917, Lénine defende que se proponha «a todos os povos beligerantes e aos seus governos» o início imediato de «negociações sobre uma paz justa e democrática (...), sem anexações (isto é, sem conquista de terras estrangeiras, sem incorporação pela força de povos estrangeiros) e sem contribuições.»7
Iniciam-se negociações com o Império Alemão, mas estas são suspensas, no início de Fevereiro de 1918, quando o então Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros, León Trotsky, decide não cumprir as instruções bolcheviques e recusa assinar a paz, afirmando que não aceitava as condições impostas e que a Rússia não combateria e continuaria a desmobilizar o seu exército.
O imperialismo alemão viu a oportunidade para esmagar a Revolução Socialista. Violou o armistício e ameaçou a sobrevivência do Estado de operários e camponeses. Lénine e o poder soviético apelaram à defesa da pátria socialista e os germânicos foram repelidos.
A paz de Brest-Litovsk acabou por ser assinada em condições muito mais gravosas levando à cedência de grandes parcelas de território à Alemanha, mas permitiu concentrar forças na defesa da Revolução de Outubro, que inaugurou a construção de uma forma superior de organização social, o Socialismo.
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1 Lénine, V.I., «O Imperialismo Fase Superior do Capitalismo», Obras Escolhidas em Seis Tomos, II Tomo, pp. 291-404, Edições Avante!, Lisboa, 1984
2 Lénine, V.I, «Sobre a Palavra de Ordem dos Estados Unidos da Europa», Obras Escolhidas em Seis Tomos, II Tomo, pp. 268-271, Edições Avante!, Lisboa, 1984
3 Lénine, V.I., «O Congresso Socialista Internacional de Estugarda», Obras Escolhidas em Seis Tomos, I Tomo, pp. 331-337, Edições Avante!, Lisboa, 1984
4 Para além de «O Congresso Socialista Internacional de Estugarda», ver também, nas Obras Escolhidas em Seis Tomos, «O Militarismo militante e a táctica antimilitarista da social-democracia», II Tomo, pp. 355-363; «As divergências no movimento operário Europeu», II Tomo, pp. 39-43, «A burguesia e a paz», II Tomo, pp. 96-97; «A classe operária e a questão nacional», II Tomo, pp. 98-99; «Os armamentos e o capitalismo», II Tomo, pp. 39-43
5 Lénine, V.I., «O Socialismo e a Guerra», Obras Escolhidas em Seis Tomos, II Tomo, pp. 291-404, Edições Avante!, Lisboa, 1984
6 Idem, ibidem
7 Lénine, V.I., «Relatório sobre a Paz», in Obras Escolhidas em Seis Tomos, III Tomo, pp. 340-344, Edições Avante!, Lisboa, 1984