Tragédias e perguntas
«Famílias inteiras dizimadas». A frase é de um dos telenoticiários da SIC Notícias, refere-se ao efeito de um dos ataques israelitas a zonas habitacionais da faixa de Gaza e dela resulta uma primeira pergunta formulada pelo telespectador pouco informado e algo ingénuo: perante a evidência deste horror que se vem repetindo dia após dia, desta série de quotidianos crimes contra a humanidade que fazem dos responsáveis de Telavive autênticos «serial killers», como é que o Conselho de Segurança da ONU consegue não tomar a decisão urgente de enviar para o local dos massacres um contingente de «capacetes azuis» e de, simultaneamente, decretar contra o Estado judaico severas sanções de vária ordem? Mas ainda a pergunta está no ar e já o noticiário mudou de assunto: agora é o caso do avião da Malasya Airlines derrubado quando atravessava o Leste ucraniano, isto é, agora é a intensa campanha desencadeada contra os ucranianos russófonos que quiseram escolher a autonomia perante o poder criptonazi de Kiev, contra a Rússia e contra o presidente Putin, espécie de dividendo que a tragédia permitiu. E porque o assunto é agora este, uma outra pergunta assoma à cabecinha do telespectador pouco informado, é certo, mas muito treinado pela leitura de estórias policiais: a quem aproveita o crime? Pois ele bem aprendeu que pela resposta a essa pergunta se pode chegar à identificação dos criminosos.
Em cadeia
As perguntas, porém, como se diz das cerejas, podem vir umas atrás das outras. No caso, a pergunta que pode seguir-se é a que questione por que trágica leviandade um Boeing 777 com perto de trezentas pessoas a bordo se atreve a sobrevoar um território de facto em guerra sem que, tanto quanto se sabe, fosse acompanhado pelos serviços de controlo aéreo local, como é de regra internacional, nem vivamente desaconselhado a cometer essa temeridade. Como se uma viagem aérea entre a Holanda e a Malásia obrigasse ao sobrevoo do Leste da Ucrânia, quer dizer, de uma espécie de barril de pólvora com o rastilho a arder. Depois afluem em cadeia outras perguntas que podem ser entendidas como secundárias mas cujo conjunto pode sugerir a construção de uma rede de suspeitas e insinuações capaz de condicionar o juízo (na dupla acepção da palavra) dos cidadãos telespectadores. Por exemplo: por que desvairado lapso foi informado ao mundo que no avião seguiam cem (!) especialistas no combate à Sida cuja morte viria prejudicar gravemente o combate à doença, sabendo-se mais tarde que os inditosos técnicos eram apenas quatro? Outro exemplo: o que vale a afirmação de facto anónima e largamente difundida segundo a qual alguns dos militares que acolheram a «missão da OSCE» estavam «visivelmente embriagados»?, o que interessa esse dado inverificável para determinar responsabilidades na tragédia embora sirva lindamente para injectar na opinião pública uma avaliação pejorativa dos independentistas do Donetz? E quanto às informações contraditórias acerca da recolha das «caixas negras» e da «refrigeração dos corpos», o que pensar além da inevitável suspeita de corresponderem a disparos de franco-atiradores especializados na desinformação sem princípios mas com feíssimos fins? E, enfim, do muito mais que a televisão vai trazendo a nossas casas, aparentemente habituada a tomar-nos talvez por parvos, decerto por crédulos, esquecida de que já temos uma longa experiência de propaganda política mascarada de informação. Entenda-se: não se sugere aqui que o derrube do Boeing malaio tenha sido um premeditado crime «made in West» com o triplo objectivo de desacreditar o independentismo do Leste ucraniano, reforçar a ofensiva contra a Rússia de Putin e, porventura como complemento inesperado, fazer com que a opinião pública esqueça um pouco os massacres cometidos pelos israelitas em Gaza. Mas, perante um telenoticiário ainda que organizado de boa-fé mas a partir de materiais envenenados, é bom que estejamos em guarda e que busquemos fontes de informação alternativas. Porque pouco mais temos que nos defenda da intoxicação.