«O dia em que limpámos o medo»

Domingos Lobo

Somos um país necrófilo, um tanto por preguiça, pelo fastio da vida, porque nos queremos resguardados, sobranceiros e cínicos, num permanente remorso bíblico-cristão que nos impede reconhecer o outro, referir em tempo útil a influência que outros terão exercido nos nossos percursos de vida; porque somos, por condição atávica, de língua ressabiada, disponível para o acinte, a crítica balofa, mesmo quando, no 10 de Junho, modorrando a chateza dos discursos, batemos palmas a comendas alheias (escondendo o manguito na sobrecasaca) e vamos ensaiando ao espelho a pose, com peitoral candura, para que na lapela do albornoz um qualquer presidente espete as medalhas futuras de que há muito, no recato das confissões umbilicais, nos sentimos com pleníssimo direito. Propensos a festejar os mortos dado que, por entre lamentos e rituais fúnebres, o nosso discurso, mesmo cinzentão e coxo, irá enxertado de ranço louvaminheiro q.b. e os amigos e parentela hão-de agradecer de lágrima oca ao canto de olhos vogando em infinitos de torpor, tanto empenho, brilho e rasgo intelectual.

Temos este sacrossanto jeito de acantonar os velhos à lareira, a mordiscar broa seca ou, em versão pós-moderna e basto neoliberal, os deixamos a azedar frente aos gouchas deste mundo e vamos à vidinha que é curta e nos empurra, inclemente, para os tablados da fama e da fortuna, aguardando a estrela que há-de soltar-se de um céu de papelão.

Foi a este ritual de cinzas que o (des)governo tentou conduzir as oficiosas Comemorações dos 40 anos de Abril: a um acto solene, sisudo, vazio de conteúdo, acantonado no bolor das salas, no retrós velho dos discursos de antanho, nos sobrolhos ornados de raiva e de vingança, no ridículo servil e submisso do paleio pífio. O Povo, esse, estava noutra: enchia praças, avenidas, cantava o Abril dos cravos, das portas abertas para a claridade.

E outra conversa serenava nos livros. As palavras que hão-de ficar. Porque ainda existem livros que nos inquietam, que nos estremecem, que permanentemente nos convocam a reflexão, que não pedem licença para estar, existir, livros que nos dizem, de tão urgentes, logo a começar pelo título, ao que vêm. Que estão vivos e, mais do que estar e ser, nos levam à descoberta do que lá vem escrito, nos convidam ao percurso por essa cartografia de sinais, de identidades, de signos que dizem dos dias altos ou amargos da nossa casa comum – este País, esta Língua –, que no seu corpo narrativo de nós diz, de modo novo, atento aos vestígios que na usura dos anos nos escaparam, o fundo estremecido dessa longa jornada. Livros que nos contam por etapas, como um luzeiro aceso sobre caminhos de trevas. Primeiro, nos 25 Anos de Abril; agora, nos 40. Para que o medo não possa ter tudo, dado que atentos andamos por caminhos enxutos. Para que não estejamos a velar uma efeméride vazia, um ritual de espectros, mas a mais fecunda data, os dias mais largos vividos nesta Pátria tão deles carente.

Há, portanto, livros assim, com as artérias expostas aguardando o tempo que lhes dedicamos, para sua inteira, livre gestação. Livros serenos, como alheados da função a que se destinam, ou os destinaram, como uma casa cheia de múltiplos rumores, a aguardar o momento, o tempo descansado do nosso prazer: abrir as páginas, sentir o nutriente das palavras a invadir-nos corpo e mente e seguir por essa estrada de caracteres luminosos noite adentro sem que o sono, o pestanejar cansado das pálpebras – essa tortura que acomete os sentidos; vida que é curta para tantas palavras a descobrir –, nos tolha e aprisione, impeça o supremo prazer. Livros raros. Como este de Francisco Duarte Mangas e Augusto Baptista. Livro singelo, pouco mais de 50 páginas, que se lê de um fôlego. Uma mão-cheia de palavras que crepitam, que derramam a matéria mais viva da nossa memória: Uma bela manhã, já doce aroma das laranjeiras navegava na brisa, tudo acabou. Num só dia limpámos o medo dentro de nós. Afinal, podíamos observar sem susto, Tomaz e o outro. Cínicas criaturas do livro, nos espiavam também na fria sala de aulas, no alto da parede, ladeando o crucifixo. Retratos da mesma colecção, expostos na Casa do Povo, vi-os sair à rua, exibindo toscos bigodes e outros acrescentos perversos. O fogo repastou-os à nossa frente, rito de cremação do passado. Dias luminosos. Procurávamos, sôfregos, a alegria.1

Para esta nova edição do livro, publicado em 1999 pela Campo das Letras, que teve também uma edição italiana em 2006, os autores juntaram dois inéditos: Golpes de Mão e Ocupação do Tempo, sendo o primeiro da autoria de Augusto Baptista, e o segundo de Francisco Duarte Mangas.

O conto de Duarte Mangas (Ocupação do Tempo) é um texto amargo, uma narrativa sobre os dias que vivemos e a memória, com marcas sobre a pele, dos tempos de uma guerra longa de 13 anos; guerra em três frentes, Angola, Guiné, Moçambique; as marcas que restam, na pele, as mais suaves, na alma, as que perduram 40 anos após. E os dias desocupados, sem préstimo. E a propaganda a deixar laivos de revolta: O pior, o pior passou: resgate limpo! Preencher formulários, na fila do desemprego, ocupar o tempo, esquecer a fome, e esta guerra de hoje a matar os filhos de desilusão, desesperança, a levá-los para as lonjuras deste vasto mundo, para Angola de novo, para a Europa dos resgates e da usura, em fuga como nos idos de 1960, dado que andamos de novo tolhidos e inseguros, transidos de medo. Onde foi que o meu amigo fez esse cacho de tatuagens? Na outra guerra, as tatuagens eram diferentes, neo-realistas como os sonhos, como os receios. O meu amigo alguma vez ousou sonhar como os neo-realistas? «Não o entendo. Eu trabalho, vejo televisão: adormeço».2

O conto de Augusto Baptista, Golpes de Mão, diz-nos da guerra colonial: Unimog’s, fracturas, fundas cicatrizes. O cão, o Condor, amigo de tempos infectos, desumanos, como Argos, de Ulisses, morto numa picada. As bolanhas da Guiné, os medos: tantas geografias do desconhecido, tantas quantos os dedos e as linhas sinuosas na palma da mão, indecifráveis sobressaltos; e o estupor da fome, os miúdos que arrancam ossos dos dentes dos cães, que os disputam aos cães e entre si, um osso, Para mitigarem a fome. E os tempos enxutos do MFA, as reivindicações, as melhores condições de vida e de trabalho, a luta diária pela dignidade. Memória que arde sobre a fuligem do tempo, dos anos. Como sacudir o pesadelo das mãos? Das minhas mãos, para sempre.3

Que estes dias do nosso desencanto sejam afinal, sobre a memória de Abril, os dias do recomeço: sem medo. O Medo não Podia (não pode) Ter Tudo – não terá tudo, sequer o medo, porque o venceremos.

 

O Medo não Podia Ter Tudo,
de Augusto Baptista e Francisco Duarte Mangas

Colecção: memória Perecível
Edição: Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto/Abril, 2014

 

1 O Medo Não Podia Ter Tudo, conto de Francisco Duarte Mangas, p.19, colecção Memória Perecível, edição Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Abril de 2014 (2ª. edição)

2 Ocupação do Tempo, de Francisco Duarte Mangas, in O Medo Não Podia Ter Tudo, p.14

3 Golpes de Mão, de Augusto Baptista, in O Medo Não Podia Ter Tudo, p.58



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