Fantasmas e outros sustos

Correia da Fonseca

Encerradas as urnas, iniciados os comentários, logo o que mais se ouviu foi a denúncia da elevada percentagem da abstenção e a consequente extracção de conclusões. Jornalistas e meros opinantes eram decerto criaturas com informação acima do comum, talvez privilegiada, no mínimo conhecedoras de dados que a generalidade das gentes ignora e que parece indispensável para saber ao certo a dimensão da abstenção havida. Por exemplo, essa estória aparentemente aterradora dos «eleitores fantasmas», isto é, dos cidadãos cujos nomes constam dos cadernos eleitorais e não deviam constar. São eleitores que não votam, quer dizer, que se abstêm, por uma razão incontornável e definitiva: estão mortos. São muitos? Não se sabe, mas não é ousado estimar que sejam largos milhares. A questão é que também não se sabe há quantos anos não é feita a chamada limpeza dos cadernos eleitorais, sabendo-se contudo que há vários anos se vem falando da sua necessidade sem que o Estado se resolva a proceder ao necessário. Como se (sublinho: «como se») lhe interessasse que uma abstenção acrescida pudesse ser usada como argumento contra a democracia e o valor democrático do voto. O que se sabe, isso sim, e da fonte sempre segura que é a realidade quotidiana, é que as pessoas morrem. Já agora, acrescente-se que morrem sobretudo as mais velhas, o que significa que vão morrendo maioritariamente as que sofreram o fascismo e desse sofrimento retiraram sabedoria.

Vinte e sete menos oito

Há, porém, outros abstencionistas que sem serem propriamente fantasmas estão também ausentes das cabines de voto: são os muitos, muitos, que emigraram a procurar em lugares mais ou menos distantes os meios de subsistência digna que no seu próprio país lhes são negados. Esses são de idades várias presumindo-se contudo que são sobretudo jovens, mas uma circunstância parece certa e mesmo evidente: são eleitores pouco ou nada motivados para votarem nos partidos do Governo. Chegados aqui, já deparamos com dois dados de que ignoramos a dimensão e cujo valor numérico seria preciso deduzir à abstenção contabilizada para conhecermos a verdadeira extensão da abstenção real e voluntária. Dir-se-á que noutros países também a abstenção foi elevada. Tê-lo-á sido, mas não se sabe em que estado de actualização estão os respectivos cadernos eleitorais, além de parecer certo que a gestão política desta Europa-a-não-sei-quantos pode não ser estimulante do voto. Não obstante, recorde-se que a tão falada abstenção, a efectiva e a resultante do desmazelo burocrático, a abstenção tão usada numa tendencial descredibilização do voto como dado fundamental da vida democrática, não impediu a subida do voto na CDU para um resultado sem dúvida importante e significativo, sendo obviamente duvidoso que os falecidos fossem apenas eleitores do PS do doutor Seguro e dos dois partidos do tandem Pedro-e-Paulo. De facto, a pobreza do resultado conseguido pela aliança governamentosa é um susto: se aos 27% obtidos deduzirmos uns 8% facilmente atribuíveis ao CDS-PP, fica o PSD reduzido a uns 19%, uma miséria comparativamente com a sua presunção. É claro que este simples exercício aritmético não o vimos em qualquer dos canais da televisão constelados de peritos e sábios e onde só a horas já avançadas foi possível lobrigar dois comentadores comunistas. Mas, quanto a este ponto, convém lembrar que para certas particularidades a televisão portuguesa não é senhora de pressas e as coisas parecem dar sinais de quererem emperrar, de tal modo que pareceu ser-lhe difícil noticiar o que para alguns pode ter configurado um outro pequeno susto, a eleição do terceiro eurodeputado da CDU, a pretexto de que faltaria contar meia-dúzia de votos. Quase se é levado observar que, quanto a estas aparentes relutâncias, não haverá nada a fazer. Esquecendo que também neste caso há alternativa: mudar.




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