Limpar Matas

Manuel Gouveia

Pôr os desempregados a limpar matas é uma das frases recorrentes de uma certa mitologia reaccionária em Portugal. Já todos a ouvimos, até às vezes vindo de gente boa, bem intencionada, mas que cai nas armadilhas do pensamento dominante.

Pois agora o Governo, apoiando-se ainda noutra campanha reaccionária – contra os portugueses obrigados a sobreviver com o Rendimento Social de Inserção – decretou o envio de dois mil desempregados e detentores do RSI para «limpar matas».

Ufanos, os ministros colocavam-se em bicos de pés para apadrinhar tal iniciativa. O Macedo falava das vantagens para o combate aos incêndios, a Cristas da importância para a floresta, o Lambreta falava da oportunidade para ganharem experiência profissional.

Teriam suas excelências todas razão – coisa rara nos dias que correm – se estivessem a falar de criar dois mil postos de trabalho na limpeza de matas. Mas não, falavam de obrigar dois mil trabalhadores, para manterem os subsídios sociais que só recebem porque não têm emprego, a trabalhar sem direitos na limpeza de matas.

Em vez de criar emprego, suas excelências apontam à imposição de trabalho gratuito, com o risco de se destruir ainda postos de trabalho no processo, pois a isso leva esta tentadora oferta de mão-de-obra gratuita e precarizada.

Estamos pois perante uma medida reaccionária, populista, contra-producente, que agrava o caminho de empobrecimento nacional, e nem sequer os problemas (reais) da floresta irá resolver, mas que transporta todo o potencial de ser simpática aos olhos das suas próprias vítimas. Um aparente contra-senso só possível porque a comunicação social dominada se limita a ser campo de pasto para acções de propaganda, completamente alheada da missão de informar.

 



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