A «cassete»
Prodigiosa é a imaginação da direita nas formas que usa para desvalorizar ou silenciar as propostas e ideias do PCP e da CDU.
Ora porque são todos iguais (e, se são todos iguais, deduz-se que o melhor é deixar tudo na mesma), ora porque não são alternativa, ora porque o que propõem não é sustentável, ora porque repetem sempre as mesmas coisas como se fossem cassetes.
A ideia é caricaturar para descredibilizar qualquer alternativa política que possa ser assimilada pelas massas e potenciar práticas de ruptura e de mudança.
Enfim, são tão primários que se assumem, eles sim, como verdadeiras cassetes da ideologia dominante, repetindo o discurso encomendado, com histriónica monotonia.
A receita é simples: repete-se a mentira, à mistura com umas pitadinhas de verdade, tantas vezes quantas as necessárias para produzir o efeito desejado. Habilidade muito velha que António Aleixo retratou com cristalina clareza nos seus versos cheios de sabedoria popular: «Prá mentira ser segura / e atingir profundidade / deve levar à mistura / qualquer coisa de verdade».
Uma só empresa é responsável pelo aumento da exportação de combustíveis, à custa da diminuição do consumo interno, e logo se conclui e repete: as exportações são as maiores de sempre; diversos trabalhadores cansaram-se de esperar por emprego e emigraram e logo se afirma e repete: o desemprego está a diminuir em Portugal; destrói-se a economia nacional, reduz-se salários e pensões e logo se conclui e repete: o défice está a baixar.
O modo é sempre o mesmo: o ministro da propaganda, com o seu característico estilo de conselheiro Acácio, dá o mote. E as cassetes repetem o discurso até à exaustão. Se o PCP contesta, se a CDU desmente, se alguém discorda: «aqui-del-rei, que lá vêm as temíveis cassetes do bota-abaixo!».
Mas, desta vez, foram tão longe na propaganda, que até o FMI, incomodado por tamanho alarido, veio à pressa pôr água na fervura e lembrar que realidades são realidades, que o capital não vai em «cantigas» e que, dê por onde der, é necessário aprofundar o roubo e cortar mais 5% nos salários.
«O povo aguenta, ai aguenta, aguenta!». Se não for com cassetes vai com cacetes. Esta é a verdadeira natureza do capital.