Cinco avantes
O Avante! cumpre, depois de amanhã, 83 anos. Se um aniversário desta dimensão é, para qualquer jornal, um feito notável, ainda mais o é para o órgão central do Partido Comunista Português, que passou 43 anos na mais rigorosa clandestinidade. Neste período negro, muitos dos que o escreveram, imprimiram e distribuíram dedicaram-lhe toda a sua vida; alguns deles deram-na para o defender.
Nos meses e anos da Revolução, o Avante! foi o tribuno das mais avançadas conquistas de Abril e um seu dedicado impulsionador. Da mesma forma que hoje, no mais difícil período da história nacional desde o fascismo, permanece – tal como o Partido de que é voz – o mais consequente combatente pela justiça social, a democracia, o progresso, a soberania e o socialismo, afirmando e projectando os valores de Abril no presente e no futuro do País. Entre os milhares de números editados nesta epopeia de 83 anos, destacamos em seguida alguns, particularmente simbólicos desta heroica caminhada.
15 de Fevereiro de 1931: sai o primeiro número do Avante!. Na primeira página, dirige-se «Ao Proletariado de Portugal». Em si mesma, a publicação do jornal (sucessor de outros títulos, alguns dos quais com uma vida particularmente curta) reflectia já as consequências da reorganização do PCP de 1929, que designou Bento Gonçalves Secretário-geral. Partindo de uma base militante muito reduzida, o Partido cresceu e preparou-se para a luta revolucionária nas novas – e particularmente duras – condições da ditadura fascista. Novas organizações partidárias e unitárias foram criadas e vários sindicatos foram reestruturados. Muitas e corajosas lutas se travaram. O Avante! acompanhou todo este processo, contribuindo para ele. Partilhando o percurso acidentado do próprio Partido nesta década (que foi, é bom ter presente, a da construção e consolidação do fascismo), o Avante! chegou a sair com uma impressionante periodicidade e a passar largos meses sem ser editado. No final da década tinha praticamente desaparecido.
Agosto de 1941: após largos meses de interrupção, o Avante! volta a sair, naquele que era um dos primeiros êxitos visíveis da reorganização do Partido de 1940/41, na qual Álvaro Cunhal teve um papel fundamental. Tal êxito só foi possível pelo conjunto de orientações políticas, ideológicas e organizativas então implementadas, que prepararam o Partido para resistir na clandestinidade e que o transformaram definitivamente num grande Partido nacional e na principal força da resistência antifascista. Com a reorganização, o aparelho técnico do PCP, de onde saíam não só o Avante! mas outras publicações e folhetos de agitação, era de tal forma organizado que, das poucas vezes que uma tipografia caiu nas garras da PIDE, logo outra entrava em funcionamento garantindo a saída atempada dos materiais. A década de 40, e as que lhe seguiram, foram tempos de poderosas jornadas de luta de massas, de resistência e heroísmo – com o Avante! sempre, mas sempre, a cumprir o seu papel de órgão central do Partido, revelando a natureza do fascismo e denunciando a repressão, apontando o caminho da luta revolucionária de massas e organizando os comunistas e essas mesmas massas numa ampla frente antifascista.
Abril de 1974: o último Avante! clandestino. Os dois títulos de primeira página são particularmente reveladores da correcta avaliação que o Partido então fazia da situação concreta, marcada pelo agonizar da ditadura, fruto dos poderosos golpes desferidos pela luta da classe operária, dos trabalhadores e de outras camadas populares: «Não dar tréguas ao fascismo» e «Aliar à luta antifascista os patriotas das forças armadas». Para trás ficavam décadas de saída ininterrupta e centenas de edições que, passadas de mão em mão, contribuíram para consciencializar, cimentar convicções, incitar à resistência e à luta e unir militantes, simpatizantes e outros no trilhar do caminho apontado pelo Partido Comunista Português, sobretudo a partir do VI Congresso e do Programa aí aprovado para a Revolução Democrática e Nacional. Graças a este percurso, o Avante! é o jornal comunista que, em todo o mundo, mais tempo resistiu na clandestinidade, sempre impresso e distribuído no interior do País, o que também é façanha inédita.
Maio de 1974: pela primeira vez na sua história, o Avante! saiu legalmente. Já não era um pequeno jornal clandestino, produzido, distribuído e lido às escondidas, mas sim um grande e orgulhoso jornal legal, disputado nas ruas e que vendeu meio milhão de exemplares. Fruto da Revolução de Abril, da qual foi também um destacado obreiro, o primeiro Avante! legal tinha uma manchete particularmente reveladora do quanto mudara no País em menos de um mês após o derrube do fascismo: «Os comunistas no governo provisório.» Nos meses e anos que se seguiram, o Avante! lá esteve, com o seu Partido, na linha da frente da transformação revolucionária do País: impulsionando a democratização em todos os planos da vida, apelando às nacionalizações e à reforma agrária, acompanhando o processo revolucionário que pretendia levar mais longe. E contribuindo consideravelmente para a transformação do PCP num grande partido de massas, elemento essencial para o avanço da Revolução e, depois, para a defesa das suas conquistas.
13 de Fevereiro de 2014: o de hoje. Como outros, antes e seguramente depois dele, permanece único no panorama da imprensa nacional: ao invés do apelo à resignação, mobiliza para a luta e para o fortalecimento das organizações de massas; em vez do apoio mais ou menos explícito à exploração e ao empobrecimento (com ou sem troika), afirma a necessidade e possibilidade de uma alternativa política patriótica e de esquerda, da democracia avançada e do socialismo; ao contrário dos outros, que dão cobertura a guerras de agressão e à opressão de países e povos, defende a Paz e solidariza-se com a resistência e luta pela soberania e o progresso. Jornal comunista de tradição leninista, enriquecido com a experiência própria de décadas de luta, é ele próprio um factor de reforço político, ideológico e organizativo do PCP, condição essencial para operar transformações profundas no País tendo como objectivo a construção do socialismo e do comunismo. Parabéns!