Lembrar Auschwitz para preservar a memória

Anabela Fino
O excerto do poema de Brecht que aqui se reproduz como introdução ao texto com que assinalamos o 27 de Janeiro, proclamado pela ONU como Dia Internacional de Recordação, em memória das vítimas do Holocausto, é bem o exemplo de como a obra do poeta comunista alemão mantém toda a sua actualidade. Numa altura em que tantos procuram reescrever a História tornando os carrascos em heróis e as vítimas em algozes, clamando boas intenções para atingir pérfidos fins, importa sublinhar que este 27 de Janeiro é o aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz pelo Exército Vermelho, o exército da União Soviética.

Não existe praticamente nenhum grande banco ou monopólio alemão que não tenha enriquecido com o nazismo e a escravidão dos prisioneiros dos campos de concentração

(…) Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

Bertold Brecht

O Exército Vermelho libertou Auschwitz, o maior e mais conhecido campo de extermínio nazi, a 27 de Janeiro de 1945. Nessa altura já a União Soviética contabilizava mais de 20 milhões de mortos, tremendo balanço a atestar sem qualquer margem para dúvidas a sua trágica condição de país que sofreu como nenhum outro os efeitos da guerra de extermínio levada a cabo pela Alemanha hitleriana. Este facto, só por si, justificava que o dia 27 de Janeiro constasse em todos os manuais de História indissociavelmente ligado ao Exército Vermelho, que ao libertar Auschwitz libertou a humanidade e deu a conhecer um dos mais terríveis símbolos da opressão e da barbárie de um sistema que provou não conhecer limites para atingir os seus objectivos, sempre pautados pela lei do lucro. Não é no entanto isso que acontece e não certamente por acaso.

Passados 69 anos da libertação de Auschwitz, o Dia de Recordação serve sobretudo aos poderes instituídospara tentar apagar a memória, a começar desde logo pelo nome dos que tornaram possível – e muito lucraram – com os crimes contra a humanidade.

Por todo o lado se lembra que no dia da libertação permaneciam no campo sete a oito mil prisioneiros, únicos sobreviventes da chacina que entre 1940 e 1945 matou pelo menos um milhão e trezentas mil pessoas, assassinadas nas câmaras de gás, nos fornos crematórios, em consequência do trabalho escravo, das torturas, da fome, do frio, das doenças, das experiências macabras em que eram usadas como cobaias ou como meros fornecedores de orgãos.

O que raramente se diz é que – como escrevia em 2011 o nosso colaborador Rui Paz, entretanto falecido – em «Auschwitz tudo era financiado pelo Deutsche Bank, cuja direcção se encontrava representada na IG FarbeBayer, empresa beneficiária do trabalho escravo e fornecedora do Zyklon B, o gás da morte com que os prisioneiros considerados inaptos para trabalhar eram asfixiados. Também as contas dos SS, da Gestapo e da firma Topf, construtora dos crematórios, estavam sob o controlo daquele império financeiro. Não existe praticamente nenhum grande banco ou monopólio alemão que não tenha enriquecido com o nazismo e a escravidão dos prisioneiros dos campos de concentração.

Siemens, Krupp, Opel, BMW, VW, Daimler, IG Farbe, Alianz, Flick, Deutsche, Dresdner e Commerz Bank, são apenas os nomes mais sonantes de dinastias do mundo empresarial e da finança cujo poder foi consolidado pelo terror do regime hitleriano. Só entre 1939 e 1944 o volume de negócios do Deutsche Bank aumentou de 4,2 para 11,4 mil milhões de Reichsmark».

No mesmo artigo, Rui Paz lembrava uma intervenção proferida pelo banqueiro Hermann Abs, membro da direcção daquele monstro financeiro, no Instituto de Ciências Bancárias a 25 de Outubro de 1940, pouco meses após a ocupação militar da Polónia, Escandinávia, Benelux e França pelos exércitos alemães. Referindo-se à criação de um «espaço colonial», Abs proclamava que «a escolha dos países adequados para uma activa política de capital não apresenta hoje qualquer dificuldade para a Alemanha. (...) O espaço europeu oferece à nossa esfera de influência política ricas e vantajosas possibilidades para satisfazer os limites da nossa capacidade.»

Cabe lembrar que o campo de Auschiwtz, um complexo de três campos de extermínio, começou a funcionar em Maio de 1940, altura em que ali chegaram os prisioneiros alemães e polacos transferidos dos campos de concentração de Sachsenhausen, na Alemanha, e de Lodz, na Polónia. Esta primeira leva de «inimigos» de Hitler era composta por judeus, militantes comunistas, sindicalistas e antifascistas, democratas e intelectuais, homossexuais, ciganos, deficientes, testemunhas de Jeová, doentes psiquiátricos e todo o tipo de pessoas que a arbitrariedade do nazismo considerasse não corresponder ao padrão do ideal «homem ariano».

«Fábrica da morte»

No início de 1942 começou a funcionar Auschwitz II (Auschwitz-Birkenau), uma ampliação do primeiro campo, e em Outubro de 1942 entrou em funcionamento o Auschwitz III, mais tarde renomeado de Monowitz, particularmente vocacionado para a exploração extrema da mão-de-obra escrava.

O assassínio nas câmaras de gás foi instituído no final de 1941, cabendo a Aschwitz-Birkenau a macabra distinção de mais prisioneiros ter exterminado, sobretudo judeus (quase um milhão num total de 2,7 milhões de semitas mortos em todos os campos de concentração, e num total de seis milhões liquidados pelos nazis).

A «Fábrica da Morte», como foi designada pelos soldados soviéticos, chegou a assassinar seis mil pessoas por dia. O ritmo era tal que os fornos crematórios não tinham capacidade para carbonizar os corpos, que acabavam por ser empilhados e queimados ao ar livre.

Quando se tornou evidente a derrota, nos finais de 1944, face ao imparável avanço do Exército Vermelho, os nazis mandaram destruir as câmaras de gás e crematórios de Auschwitz-Birkenau, numa tentativa de ocultação das provas dos crimes cometidos. Em Janeiro de 1945 tudo servia para matar prisioneiros. Finalmente, a 17 desse mês, foi dada ordem de evacuação dos campos – as tristemente célebres «Marchas da Morte», em que pereceram milhares de presos. A libertação chegaria dez dias depois, mas para muitos foi já demasiado tarde.

Passados 69 anos da libertação, o mundo sofreu profundas alterações. O fim da União Soviética e a derrota do socialismo na Europa de Leste voltou a desequilibrar a correlação de forças a favor do capital e um pouco por todo o velho continente o fascismo volta a pôr as garras de fora.

A História não se repete, mas não deixa de ser perturbador constatar que, há três anos, o Deutsche Bank era, como accionista directo ou indirecto de vários grupos armamentistas, um dos principais beneficiários dos objectivos belicistas prosseguidos pela Agência Europeia de Defesa (EDA) e inscritos no chamado «Tratado de Lisboa».

É por isso que o Dia Internacional de Recordação, em memória das vítimas do Holocausto, deve servir antes do mais para nos recordar que o imperialismo e o militarismo nunca se conformaram com a derrota do nazi-fascismo.

 



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