Ruas da vitória
As movimentações de massas contra a política antipopular reaccionária multiplicam-se em Espanha, onde a crise cria condições objectivas para o aumento da contestação social.
Espanha está entre os países com «alto risco» de protestos em 2014
Ao fim de uma semana de protestos com confrontos entre povo e forças repressivas, os habitantes de Burgos venceram o braço-de-ferro com a gestão municipal. A suspensão das obras de requalificação urbanística foi saudada com emoção no bairro de Gamonal. A autarquia não conseguiu impor um projecto considerado pelos moradores lesivo dos seus interesses e do interesse público. Já se diz que aquela que é uma das principais artérias da cidade tem de mudar de nome: de Rua Vitória para Rua da Vitória.
Os intensos dias de contestação mostraram o quanto vale a luta. Lição apreendida pelas massas que, insurrectas, voltaram a marchar, nessa mesma sexta-feira, 17, exigindo a libertação das dezenas de detidos nos protestos das noites anteriores.
O secretário da Segurança Interna do executivo espanhol liderado por Mariano Rajoy atribuiu a grupos de instigadores itinerantes a violência observada em Burgos desde o passado dia 10. Questionado pelo El País, não soube porém explicar por que é que todos os presos são habitantes de Burgos e desvinculados de qualquer colectivo dito radical.
Desde meados da semana passada, o povo de Burgos recebeu a solidariedade dos habitantes de outras cidades. A tenacidade popular transformou uma acção reivindicativa em torno de uma questão concreta e localizada num movimento amplo de rejeição à política antipopular do governo, acusado de estar ao serviço do capital especulativo. Milhares de pessoas saíram às ruas de Saragoça, Bilbau, San Sebastián, Vitoria, Barcelona, Alicante, Valência, Santander ou Toledo. Na capital espanhola também se registaram confrontos entre manifestantes e polícia.
Repúdio que prosseguiu, domingo, em Madrid, contra a privatização de hospitais públicos. Pela 15.ª vez (a primeira em 2014), a denominada maré branca marchou em defesa do serviço público de saúde, ameaçado pelos cortes orçamentais brutais e o processo de desresponsabilização do Estado de importantes funções sociais.
Sem descanso
A entrega a privados das seis unidades hospitalares foi suspensa pelo Tribunal Superior de Justiça de Madrid, mas a determinação do primeiro-ministro Rajoy e dos eleitos locais dos partidos vinculados à «austeridade» em cumprirem a tarefa que lhes foi atribuída não permite desmobilizar.
De acordo com a Europa Press, as comissiones Obreras (CC.OO.) sublinharam, no dia 10, que a debilitação dos sistemas de protecção social em Espanha ocorre quando estes «são mais necessários do que nunca, dado o empobrecimento dos trabalhadores e da generalidade da população», resultado da acelerada desvalorização dos salários e pensões de reforma, bem como do flagelo do desemprego, que já ascende a 26,7 por cento.
Dados oficiais indicam que o risco de pobreza estendeu-se a 26 por cento dos espanhóis e a 40 por cento das famílias com filhos. 27 por cento dos agregados têm os rendimentos de pessoas maiores de 64 anos como principal sustento.
No dia 17, noticiou a Lusa, o crédito malparado em Espanha atingiu o valor mais alto do último meio século: mais de 192 504 milhões de euros ou 13,08 por cento do total concedido. Boa parte diz respeito a empréstimos para aquisição de habitação. É de prever que o número de despejos, que até Setembro de 2013 se cifravam em 183 por dia, continue a aumentar.
Acrescem os aumentos dos preços da electricidade, dos transportes, das portagens e das taxas aeroportuárias, em vigor desde 1 de Janeiro.
Neste contexto, não é de estranhar que as autoridades admitam o aumento das movimentações sociais no país. Estatísticas divulgadas por responsáveis da segurança indicam que em 2012 ocorreram 36 mil 798 manifestações e concentrações, mais 365 por cento face a 2011. A revista The Economist situa Espanha entre os países com «alto risco» de protestos em 2014, apontando como detonador a mistura explosiva de desemprego e depreciação dos rendimentos populares, com a vulnerabilização dos sitemas de protecção social e o aumento das desigualdades na distribuição da riqueza.
Entretanto, o Banco de Espanha informou que «a riqueza das famílias» aumentou 20,8 por cento entre Setembro de 2012 e o mesmo mês de 2013. Não detalhou, no entanto, a distribuição destes «activos financeiros», mas deduz-se que os desafortunados tenham razões acrescidas para lutar.